domingo, 2 de janeiro de 2011

A TERCEIRA MARGEM DO RIO




A metáfora de “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, uma obra prima do conto brasileiro, é o esquecimento ou alheamento de tudo. Uma tentativa de buscar um mundo de sonhos, de afastamento das coisas reais para viver numa outra dimensão. É a história de um homem que, sem mais, nem menos, para o estranhamento da mulher, dos filhos e dos amigos, manda fazer uma canoa, despede-se e parte para uma viagem sem retorno. Uma viagem que não é uma viagem. É um desligamento da vida, das coisas materiais, das relações pessoais.  Ele estava ali, a vista, mas distante de tudo e de todos.
            A alienação  é constante na literatura. Em Rei Lear, de Shakespeare, o pai resolve, em vida, repartir seu reino entre suas filhas. Uma delas, a sua preferida,  considera a sua  decisão insensata. Ofendido por isso, ele a deserda. No final , já demente,  é abandonado pelas filhas herdeiras e é amparado pela filha deserdada.
             Dom Quixote de La Mancha, ao embriagar-se das novelas de cavalarias no século XVI e resolver sair pelo mundo como um cavaleiro andante, também buscou a sua terceira margem do rio para se desvincular do mundo real que o oprimia. Dom Quixote, como personagem, vivia entre o real e o imaginário e por vezes interpretando o real através das suas fantasias.  Cervantes faz uma profunda ironia com o seu personagem, pois em nossos dias, muita gente vê, tal como na época do autor, monstros em moinhos de ventos. Pessoas que se dizem abduzidas por seres extraterrenos, com visões de naves espaciais que nunca foram comprovadas. A loucura pode ser vista como positiva, quando o louco reproduz os interesses de segmentos da sociedade. Assim, muitos loucos estão na mídia, fazendo proselitismo de suas idéias religiosas, políticas ou mesmo artísticas.
            O personagem de Cervantes tem um comportamento intelectualmente racional quando procura explicar a importância dos cavaleiros andantes na defesa da ordem, dos injustiçados e das donzelas desamparadas, mas quando vê o real a partir da ficção, cai em descrédito.
            O seu fiel escudeiro, um mentecapto interesseiro, que mesmo tendo consciência de que o seu amo está mais para a loucura do que para a sanidade, continua insistindo em acompanhá-lo, na perspectiva de que possa algum dia receber alguma recompensa.  O escudeiro é também esperto o suficiente para enganar Quixote para evitar que este faça mais loucuras. Mas é também um insano obcecado pela ambição.
            Outra obra genial que trata da loucura ou da perda do discernimento é o Alienista de Machado de Assis. O médico Simão Bacamarte, de tanto ver insanidade nos outros, acaba percebendo-se também insano. O gênio de Machado deixa  então a dúvida  se a insanidade e a normalidade não estariam tão próximas que às vezes podem se confundir na complexidade das relações humanas.
            Quixote, Bacamarte e o Velho da “terceira margem do rio”,  não seriam personagens que vivem entre nós nas escolas, nas empresas, na política, no governo, nas ruas, nos bares? A normalidade parece ser relativa e assim pode depender do ponto de vista. Quantas vezes não refletimos sobre a sanidade de conhecidos,  parentes e amigos? Não seria também uma atitude de modéstia refletir sobre nossos próprios atos? Isso, convenhamos,  é bem mais complicado, pois nossa vaidade não deixa chegar ao ponto de admitirmos que nem sempre somos normais. Normais? Afinal o que é normalidade?

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

CID NARDY, UM GRANDE MESTRE


Meu primeiro contato com o Cid Nardy foi através de sua dissertação de mestrado sobre cultura organizacional, a qual utilizei como referencial teórico em minha dissertação sobre o impacto da cultura nos sistemas de remuneração.
Tempos depois nos encontramos por acaso em um colégio paulistano para participarmos de palestras sobre carreiras profissionais. Houve uma inversão na ordem das palestras e fomos apresentados para discutirmos quem iria fazer a palestra em primeiro lugar.  Lá estava o Cid Nardy que eu conheci pelo seu trabalho acadêmico. Era um sujeito alto, com vasta cabeleira branca, aparentando mais idade do que realmente tinha. Sua simpatia era irradiante,  sua voz tinha uma entonação suave e calma.  É claro que entabulamos uma boa conversa e quase nos esquecemos das palestras. Lembro-me ainda que o Cid estava preocupado com mais dois compromissos à tarde e até brinquei com ele sugerindo que deveria “pegar mais leve”, que a vida era curta.
Algum tempo depois eu tive o prazer de convidá-lo para uma palestra na FEI sobre o seu livro “Desafios da Mudança” e também por outro motivo muito especial: ele foi aluno da FEI-ESAN, em São Paulo no curso de Administração. É dispensável falar que a palestra foi  muito bem conduzida pelo Nardy e ele se sentiu bastante emocionado por participar de um evento na instituição em que ele se graduou como Administrador. Apesar de ser também engenheiro, era na carreira de Administrador que ele se identificava mais profundamente, fato que o levou a participar durante longos anos da diretoria do Conselho Regional de Administração.
Foi, portanto, com tristeza que soube, através de um amigo comum, o prof. José da Cunha Tavares do seu falecimento. Foi realmente uma pena que o Cid tenha partido tão cedo, quando ainda tinha tanto para contribuir com o ensino de Administração e com a formação dos nossos jovens.
Seu nome me fez lembrar o herói espanhol El Cid, cuja nobreza de caráter era cantada em prosa e verso. Dizia-se que era um tão nobre súdito para tão pouco nobre rei. Sobre o Cid tenho a dizer que era um tão nobre mestre para uma vida tão curta.

Renato Ladeia
FEI

sábado, 5 de junho de 2010

A ÉTICA E O MEIO AMBIENTE

“Com o tipo de instrumentos que hoje manejamos, se não houver um comportamento ético, ou seja, uma pré-disposição individual e institucional de buscar o bem comum, o que conseguiremos será a destruição” (Ladislau Dowbor).


O momento é extremamente rico para algumas reflexões acerca da ética de um modo amplo, pois há uma preocupação sintomática na sociedade, senão generalizada, pelo menos tem estado presente em quase todos os meios de comunicação, nas universidades, nos debates públicos, nos partidos políticos, nas escolas etc. Afinal o que é ética? Fala-se muitas vezes em ética no sentido de regras, de leis, normas etc. Ética é muito mais do que isso. Os casos veiculados pela mídia sobre corrupção nos poderes executivo, judiciário e legislativo, há muito saíram do campo da ética e se enquadram em categorias de crimes, estelionatos e por ai afora.

A transgressão de leis explícitas que estabelecem o limite entre o que é público e o que é privado, sai do campo ético, passando para o criminal, pois a ética pressupõe valores de consciência moral. Como escreveu o filósofo Emmanuel Kant: A vontade só pode ser considerada moralmente boa ou má se é livre. Assim, a primeira condição para a possibilidade de consciência moral é a liberdade da vontade. Dessa forma, uma atitude ética pressupõe a liberdade de opção do indivíduo entre um ato bom ou mau. Caso a opção for pelo ato mau, ele não sofrerá nenhum tipo de punição, pelo menos de natureza penal ou econômica.

As atitudes do ser humano em relação ao meio ambiente, aos poucos estão deixando a categoria de problema ético para ingressar em uma categoria que chamaríamos de penal, pois a humanidade está assumindo uma posição mais categórica em relação aos riscos da degradação ecológica. Por outro lado, mesmo quando as sociedades estabelecem leis explícitas quanto à utilização de determinados produtos químicos, despejo de poluentes em rios e na atmosfera, desmatamentos etc., se não existirem mecanismos de controle e punição eficientes poucos vão respeitar as regras. Este problema é endêmico em nosso país e estaria possivelmente relacionado a uma cultura tradicionalmente avessa às regras e normas e que tudo pode ser resolvido através do “jeitinho” ou “molhando” a mão do fiscal ou outra autoridade superior.

Infelizmente, em nosso país ainda predomina, de forma cruel, a lei do individualismo, fruto do racionalismo desvinculado das emoções e da percepção do outro. O interesse pelo outro só ocorre quando pode ser utilizado como instrumento para a satisfação de interesses personalistas ou narcíseos. Essa concepção alcançou seu apogeu no final do século XX e está inserida na ideologia do sistema capitalista, que busca a eficiência em termos de resultados financeiros acima de qualquer outro valor humano. O que importa é a realização do projeto individual em todos os campos da atividade humana seja na vida privada ou através das organizações que manipulam de forma eficiente a possibilidade de realização dos desejos de consumo, poder e exposição na mídia. A organização cujo único objetivo esteja centrado na busca do resultado contábil estimula de forma perversa a destruição do outro sem ter consciência de que poderá ser ela mesma vítima desse processo. As organizações deste tipo, de um modo geral, tratam também as pessoas como meros números e não geram nos indivíduos o envolvimento com relação à instituição, pois na busca do sucesso contínuo, geram milhares de seres humanos excluídos.

Não havendo uma ética da reciprocidade, não pode haver vínculos possíveis entre os indivíduos e as instituições em que trabalham, estudam ou das cidades em que moram. A lógica desse sistema ideológico fundado na perversão (paixão mecanicista desvinculada da emoção humana, do amor, da solidariedade) pode levar a humanidade à sua própria destruição, pois não são incutidos nos indivíduos, através das famílias, das escolas e das organizações empresariais ou públicas a cidadania em seu sentido mais profundo, ou seja, o respeito pelo outro. Esta babel gerou também a consciência egoísta dos direitos, no sentido também de satisfazer apenas as necessidades individuais, sem a preocupação com os deveres.

A emergência de uma discussão ética com relação a comportamentos relacionados não só com o meio ambiente, mas em relação a outros valores sociais, que são considerados normais por sua prática usual por políticos, funcionários públicos, empresários e cidadãos de modo geral, pode ser o resultado do início de uma revolução moral em nossa sociedade. Assim, torna-se fundamental estimulá-la em todos os espaços possíveis e, principalmente, nos lares, onde se forja a estrutura básica de um cidadão.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

CARROS: UMA AGENDA SEM FUTURO



A grave crise pela qual estão passando as indústrias automobilísticas, principalmente as norte-americanas, não é apenas decorrente do colapso econômico global, mas uma crônica de morte anunciada. De nada adiantarão as injeções de recursos públicos para salvá-las. As fusões, incorporações e aquisições somente darão um pequeno fôlego para esta indústria sem futuro. O problema começou, verdadeiramente, com Henry Ford em sua firme disposição de criar condições para que toda família de trabalhadores pudesse ter o seu Ford T. Nada contra o idealismo do lendário capitão da indústria, cujas idéias estavam ligadas ao processo de expansão constante do capitalismo, pois ninguém ousava pensar, naquela época, que o automóvel se tornaria em um bem acessível a milhões e milhões de pessoas em todo o mundo. Tampouco alguém ousaria imaginar ou denunciar o impacto ambiental e social desta máquina. De qualquer forma ninguém daria ouvidos a tão descabida preocupação na época.
Os governos, de todos os países do mundo, dirigiram investimentos públicos para facilitar o tráfego dos veículos motorizados, como grandes e largas avenidas, viadutos, pontes, garagens etc. Em função desta opção, os investimentos em transportes públicos, salvo honrosas exceções, foram colocados em segundo plano. As cidades foram adaptadas ao automóvel e não ao Homem. Em países como o Brasil, as ferrovias foram abandonadas, o transporte fluvial ou de cabotagem não chegou sequer ser cogitado pelos governantes, mais preocupados com o imediatismo e nunca com o longo prazo.
As cidades se agigantaram, de Metrópoles se tornaram Megalópoles, com a concentração urbana exigindo mais e mais investimentos públicos em saneamento básico, educação, saúde, infraestrutura e transporte. O custo de transportes coletivos como o Metro, única saída para contornar os congestionamentos nas ruas e avenidas, é extremamente alto, tornando praticamente impossível o atendimento da demanda crescente por esse meio de locomoção. Precisaríamos de três ou quatro vezes mais linhas do que temos hoje. A ampliação dos limites da cidade de São Paulo, que se conectou as cidades vizinhas, tornou simplesmente imperceptível os limites geográficos. Trabalhadores do ABCD se deslocam diariamente em direção à capital e vice-versa. O mesmo ocorre com outras cidades vizinhas a oeste, leste e norte, tornando a idéia de municípios, com administrações separadas, uma utopia. Dessa forma, a região metropolitana de São Paulo já necessita de linhas de Metro para todas as cidades vizinhas.
Os ônibus se tornaram inviáveis como alternativa de transporte, pois o aumento da frota esbarra no mesmo obstáculo: onde circular? Ruas preferenciais exigem altos investimentos e também uma severa fiscalização, o que aumentaria seus custos de manutenção. Assim nos encontramos no velho dilema: aumentar as ruas ou diminuir o tamanho dos veículos? Recentemente foi publicada uma estatística em que se todos os veículos da cidade de São Paulo fossem para as ruas e ficassem alinhados, não haveria espaço para circulação. Por sorte, muitos veículos permanecem em suas garagens boa parte do dia. Entretanto, outro dado bastante alarmante é o número de carros novos licenciados na cidade: cerca de 20 mil por dia.
Estamos caminhando para o caos e parece que ninguém está preocupado com o futuro. O futuro? Ora o futuro é para as próximas gerações, dirão os políticos, mais focados no sucesso imediato de sua gestão. Não há compromisso político com o futuro, pois o período de quatro anos mal dá, para políticos convencionais, angariar patrimônios eleitorais que garantam as próximas eleições. E como ninguém quer se preocupar com o futuro, vai se deixando as coisas como estão e enfiando a cabeça na terra como faz a avestruz.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

EXTRATERRESTRES



Revendo quase por acidente o filme ET em que um extraterrestre é apresentando como um pequeno monstrinho sensível e delicado, observa-se um grande contraste com as declarações de pessoas que se dizem abduzidas pelos seres de outros planetas. Umas duas mulheres que relataram os seus “casos” com alienígenas, revelaram que eram altos, loiros e com olhos azuis. Essas pessoas juram por todos os deuses que tiveram filhos destas relações e não ficam constrangidas em mostrá-los na televisão. A entrevistadora faz expressão séria ao formular as perguntas sobre como ocorreram as abduções. A cena me fez lembrar do livro de Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios em que o autor procura desmascarar, através de explicações fundamentadas na ciência, esses depoimentos sobre encontros com extraterrestres. Sagan não usou meias palavras para criticar esse modismo contemporâneo. Lembra o físico e astrônomo que não há registro histórico de contatos com seres extraterrenos nos séculos anteriores aos livros de ficção de Julio Verne ou antes da famosa locução do ator norte-americano Orson Welles sobre a invasão da terra utilizando um texto de H.G. Wells. Até então só temos registros de aparecimentos de personagens religiosas.
Nos anos setenta do século passado foi publicado um livro chamado Eram Deuses os Astronautas de Von Danicken, tentando provar que algumas obras arquitetônicas foram obras de seres alienígenas que visitaram a terra em tempos idos. O livro foi convincente e eu mesmo embarquei na história, pois acreditava na possibilidade concreta de que a terra não poderia ser o único planeta habitável do universo. Considerando a existência de trilhões de estrelas no centro de possíveis sistemas solares, nada seria mais lógico e racional do que aceitar a possibilidade de haver vida em outras partes do universo. Sagan, que era um profundo conhecedor de astronomia – dentro das tecnologias disponíveis pelo atual estágio da ciência, não descartava esta possibilidade, mas coloca também a hipótese de que a terra seja também pode ser o único exemplo de vida em todo o universo. Caso haja mesmo vida inteligente fora da terra, as dificuldades para contato serão as mesmas que encontramos atualmente. Como o universo tem a mesma idade e o processo evolutivo teria ocorrido paralelamente em todos os sistemas solares, estaremos no mesmo estágio de outras “Terras” em termos de desenvolvimento tecnológico. Considerando também as distâncias existentes, mesmo dentro de um mesmo sistema solar, as probabilidades de contato ou de viagens interplanetárias seriam, no mínimo, bastante complicadas. Eventuais viagens no futuro talvez somente sejam possíveis através de fetos congelados.
Por outro lado, parece um tanto óbvio que viajantes alienígenas não se dariam ao trabalho de ficar bisbilhotando a terra sem a preocupação de fazer algum contato inteligente para eventuais intercâmbios tecnológicos ou culturais. Alguns estudiosos de OVNIS afirmam categoricamente que a força aérea americana e a NASA escondem tais fatos da população para evitar turbulências. Ora essa! Será que com tanta gente informada sobre o assunto (pilotos, militares, políticos, técnicos etc.) ninguém sairia dando entrevista na mídia falada e escrita? Impossível.
Sagan, muito educadamente considera essas pessoas sinceras, mas paranóicas. Para ele, mesmo com um detector de mentiras não seria possível desmascarar essas pessoas, pois elas acreditam fielmente no que falam e defendem. Pessoas que vivem falando que ouvem vozes ou mantêm contatos com pessoas falecidas ou de outro mundo, são consideradas dementes e eventualmente vão para sanatórios. Entretanto, se são bem articuladas, entram para o seleto clube dos ovnianos e conseguem até a proeza de dar entrevista na televisão e em jornais. A história do matemático John Nash, prêmio Nobel de Economia que sofre de esquizofrenia e viu durante anos pessoas inexistentes com quem conversava, é um exemplo de como a mente humana é capaz de burlar a racionalidade.Sem mais delongas, devo dizer que se eventualmente existir vida inteligente fora da terra, provavelmente os ETs deverão parecer muito estranhos para nós, pois a vida teria se desenvolvido de forma bastante inusitada em outro planeta, mesmo em condições semelhantes às da Terra. Mas o mais intrigante mesmo é a pergunta que Ray Kurzweil faz em seu livro: A era das máquinas espirituais: Será que a vida inteligente é relevante no universo?

quarta-feira, 18 de março de 2009

OS NÚMEROS NÃO MENTEM





Os números dizem muito e para isto basta ter um pouco de paciência para ler as suas mensagens, fazendo alguns cálculos de aritmética básica para chegar à informações bastante intrigantes. Através do Relatório Desenvolvimento Mundial de 1993, editado pela ONU, pode-se verificar algumas projeções sobre o crescimento da população mundial até o ano 2030 que desperta algumas curiosidades para não dizer perplexidades. Vejamos alguns dados. As economias de rendas baixas e média, apresentavam em 1991, uma população total de 4,528 bilhões de habitantes, enquanto as economias de alta renda, 822 milhões de habitantes. As projeções para o ano 2000, que parecem bastante consistentes pelos números disponíveis na imprensa, indicam que as economias de rendas baixas e média, acrescentaram às suas populações no período de nove anos, algo astronômico como 766 milhões de novos seres humanos. Descendo a detalhes, verifica-se que somente nas economias de baixa renda, foram acrescidos 559 milhões de habitantes no período. Por outro lado, as economias de alta renda, tiveram um crescimento de apenas 6 milhões de habitantes num período de nove anos.

Sem querer fazer terrorismo malthusiano, os dados relativos ao PNB per capita, também neste mesmo relatório, indicam que as economias de renda média apresentaram em 1991, um PNB per capita de 2480 dólares anuais, enquanto as de baixa renda de 350 dólares anuais. Por seu turno, as economias de alta renda, chegaram a um PNB per capita de 21020 dólares anuais neste mesmo ano. Enquanto isso, as economias de baixa renda devem apresentar um crescimento demográfico médio anual da ordem de 2% até o ano 2000 e as economias de alta renda devem manter uma taxa média de 0,6%. Pelos dados é simples verificar que os países de renda baixa precisariam que o PNB per capita crescesse pelo menos trinta vezes em um período de dez anos para alcançar um PNB per capita equivalente a metade das economias de alta renda. Ainda assim, teria um outro detalhe: a taxa de natalidade teria que estar próxima de zero. Assim, com um crescimento anual do PNB entre 2 e 3%, e com um crescimento da população de 2%, é como a história do cão correndo atrás do rabo, ou seja, nunca chegaremos em tal patamar, pelo menos com a atual estrutura econômica.

Mantendo o atual nível de crescimento das populações dos países de baixa e média rendas, anualmente, mais de 100 milhões de novos seres humanos são acrescidos aos padrões subumanos de existência sem a perspectiva de crescimento econômico compatível. Como estas populações vivendo em condições precárias de saúde e educação fica cada vez mais difícil pensar na reversão deste quadro, ou seja, redução da taxa de natalidade e crescimento econômico sustentado. Enquanto os países de alta renda necessitam aportar relativamente poucos recursos em saúde e educação, pois contam com infra-estrutura adequada, os países de baixa e média rendas, necessitam de cada vez mais recursos para o atendimento das novas demandas decorrentes do crescimento da população.

MUNDIALIZAÇÃO: O CAPITAL FINANCEIRO NO COMANDO

MUNDIALIZAÇÃO: O CAPITAL FINANCEIRO NO COMANDO
FRANÇOIS CHESNAY

O sociólogo Chesnay parte da crítica aos conceitos utilizados para definir a nova globalização da economia, optando pela expressão mundialização da economia, que a seu ver, expressa de forma mais explicita o sistema capitalista de produção. Para ele a expressão mercado é utilizada como metáfora do sistema capitalista, fundamentado na propriedade privada dos meios de produção.
O fetichismo do capital financeiro transforma o dinheiro em algo que não tem relação com o processo produtivo, parecendo externo a ele, algo independente. O dinheiro adquire um sentido fantasmagórico, desvinculado da realidade concreta da sociedade capitalista. O autor desmistifica também o papel do Estado Nacional no processo de mundialização das economias, que longe de ser vítima, é um agente ativo, mostrando historicamente sua ação efetiva nas mudanças que abriram caminho ao capitalismo globalizado. A derrocada do mundo socialista foi, segundo o autor, precedida de providenciais mudanças construídas pela burocracia soviética, abrindo espaço para o triunfo do neoliberalismo.
A globalização na busca da rentabilidade máxima mostra o caráter seletivo do capital ampliando o nível de desigualdade entre nações e povos. É, nas palavras do autor, uma homogeneização que gera heterogeneidade (ou uma igualdade que gera desigualdades). Tal como a sociedade dividida em classes, a mundialização cria também uma hierarquização entre os países no sistema de relações produtivas através da divisão internacional do trabalho.
Chesnay procura enfatizar o caráter sistêmico do processo de mundialização do capitalismo como a “totalidade sistêmica”, conjunto ordenado em torno da tríade (os três grandes centros do capitalismo mundial: EUA, Europa e Japão) Neste contexto, os Estados Nacionais sobrevivem, estreitando suas relações com o capitalismo mundializado. Assim, as possibilidades de expansão só se tornaram possíveis a partir das ações políticas desenvolvidas pelos Estados Nacionais. As possibilidades do modelo estão ancoradas numa ampla base internacional que possibilita a “jogatina” financeira, manejando os capitais de acordo com a rentabilidade oferecida num universo com fronteiras bastante permeáveis para sua ação. As finanças comandam o nível e o ritmo de acumulação do capitalismo, determinando onde e quando ampliar a capacidade produtiva, enfraquecendo assim, a possibilidade de resistência dos assalariados.
Os países em desenvolvimento ou economias periféricas ficam na dependência da avidez do capital financeiro por altas e contínuas taxas de acumulação (juros sobre juros). Esses capitais revoam o globo à procura de novas vantagens competitivas como reservas de matérias-primas e recursos naturais, dimensão do mercado interno desses países e mão-de-obra qualificada, barata e com relações de trabalho com pouca regulamentação (poucos impostos e quase nenhum controle).
As crises financeiras longe do diagnóstico clássico, são a rigor, resultantes da impossibilidade de se assegurar acumulação suficiente para atender ao voraz apetite do capital mundializado. Assim, o capital bate em retirada, realizando lucros diante o menor ruído de ameaça, jogando esses países periféricos em profundas crises econômicas e financeiras.
A abordagem de Chesnay invoca em vários momentos o caráter sistêmico da mundialização do capital, sugerindo que a crise que assola os países periféricos e em menor grau os países do chamado primeiro mundo, não é individual ou localizada, mas está inserida numa esfera mais ampla e, portanto, sem solução no contexto das receitas monetaristas clássicas. A crise vai depender, portanto, da capacidade de realimentação do sistema para a manutenção do equilíbrio dinâmico.