segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

NIVAN GOMES, UM CRAQUE Nos meus tempos de moleque de rua em São Caetano, tinha um menino que morava numa casa vizinha a minha que se chamava Nivan. Ele era bom de bola. Eu acho que até tinha inveja dele, pois gostaria de driblar e chutar forte e certeiro como ele. Quando a gente jogava as peladas na rua ou no campinho, ele era sempre escolhido primeiro para compor o time. O Claudio, um garoto mais velho, que depois veio a ser cunhado do Nivaldo, irmão do Nivan, escalava o time da vila para jogar contra um time de outro bairro. Eu sempre ia jogar no gol, pois era muito ruim de bola. Mas o Nivan era bom, jogava bem na defesa ou no ataque. O Nivan era filho do seu Oscar um senhor muito sério e temido pelos filhos e parece que não gostava que as suas crianças brincassem na rua. O tempo passou, a família do Nivan mudou de bairro e eu fui fazer o antigo ginásio e nunca mais vi o garoto bom de bola e também abandonei as peladas na rua Juruá. Outro dia, o acaso me levou para aqueles saudosos tempos e encontrei o Nivan na casa da minha filha, que mora na mesma casa onde morei na infância. Velho como eu, o Nivan, já não joga bola, mas contou-me sobre sua carreira bem sucedida no futebol. Foi bem mais longe do que eu pudesse prever: jogou na base do meu Corinthians, no Grêmio de Porto Alegre, num time do Uruguai, chegou a jogar uma partida na seleção portuguesa e terminou sua carreira como treinador na Austrália. Enfim, se tornou um craque de peso. Pena que parei de acompanhar futebol e não pude ver a ascensão daquele menino que jogava as peladas na minha rua, descalço e sem camisa no calorão de verão. Naqueles tempos o verão durava o ano inteiro e a infância parecia que não tinha fim e em todas as noites havia vaga-lumes brilhando nos quintais. Não sei se viajei, mas o Nivan Gomes existe mesmo e hoje está na rede social postando crônicas. Pena que não pude contar para os amigos que eu cheguei a jogar com um craque de verdade naquelas longas tardes de São Caetano.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

A TRISTE SAGA DE BRUNO E DON

Bruno e Don eram visionários. Acreditavam na força da natureza, na inocência dos povos originários da América. Povos cujos antepassados distantes deixaram a Ásia para encontrar a sua terra prometida, pois já não havia mais recursos para sua sobrevivência. Eles amavam a floresta, seus rios, suas árvores e seus bichos. Acreditavam, tal como os indígenas, nos espíritos das florestas, cuja força e generosidade protegia a todos. Tinham um encontro com outros povos e seguiram num barco, sozinhos, pois não tinham medo. Acreditavam que seus valores eram maiores do que a maldade, do que a força do dinheiro que alimentavam os maus espíritos. Estavam sem armas. Armados apenas com a esperança e o amor que a nutria. Acreditavam que nada poderia impedí-los. Os maus teriam medo de ataca-los, pois eram queridos e respeitados por todos. Mas o encontro nunca aconteceu e eles ficaram no meio do caminho, que não tinha uma pedra, mas a crueldade. Mas numa curva do Rio Javari ouviram tiros que espantaram pássaros e bichos. Don sentiu dores no peito e Bruno no ventre e na cabeça. Pensaram nos indígenas, nos filhos e nas mulheres. Amanhã os indígenas, a floresta e os bichos serão órfãos daqueles que os defendiam da ganância. Nos momentos finais em que sentiram a dor sufocante da morte, talvez pensaram se realmente valeu a pena. Seus últimos lamentos voaram com o vento pelas trilhas das matas e pelas ondas dos rios os velhos espíritos acolheram seus amigos no leito de morte. Mas seus lamentos acordaram os homens e as crianças e muitos saíram para procura-los. Julgaram-nos perdidos na imensidão da mata, mas eram experientes mateiros. Aprenderam com os povos indígenas os caminhos dos homens e já teriam voltado se de fato tivessem tido um desencontro. Mas seus algozes confessaram o crime e onde seus corpos sem vida foram escondidos. O mundo chorou o cruel assassinato de dois homens bons, cujo único defeito era amar demais aqueles que eram fracos e desprotegidos, os indígenas, as florestas, os rios e os bichos. Que será de nós? pensam os povos indígenas que vivem sendo massacrados desde a chegada dos europeus em 1500. Restará alguma esperança para esses povos que vivem fugindo do temido encontro com os brancos? Vários heróis lutaram pela sobrevivência dos povos originários, como o Marechal Rondon, os grandes irmãos Villas-Boas, Darcy Ribeiro, Chico Mendes e tantos outros. Mas força da “grana” tem sido mais forte. O capital precisa sempre e sempre de lucros constantes, e as florestas e índios são apenas obstáculos para o seu apetite voraz. “Índios precisam trabalhar, produzir”, é o que dizem os maus espíritos que vivem do dinheiro e para o dinheiro. A vida é apenas um instrumento para a acumulação constante. Viver não é preciso, ganhar sim, é necessário.

PESQUISAS ELEITORAIS: POR QUE ACREDITAR NELAS?

As pesquisas erram, mas não mentem. É óbvio que me refiro às pesquisas sérias, realizadas com métodos estatísticos consagrados. Alguns críticos das pesquisas comentam que nunca foram entrevistados pelas tais pesquisas, mas isso é absolutamente normal. Num universo de mais de cem milhões de eleitores estar numa amostra de dois mil eleitores, é quase como acertar as seis dezenas na Mega Sena. Acontece, às vezes, de alguém ser abordado por um entrevistador e ser abandonado no meio da pesquisa porque ele descobriu que já completou o número de pessoas com nível de escolaridade superior ou estado civil, como já ocorreu comigo. As pesquisas podem ser consideradas como uma fotografia antecipada dos resultados, mas pode errar muito feio, pois até o dia do pleito, muita coisa acontece, pois, a sociedade é dinâmica. Podem surgir mudanças no comportamento dos eleitores, novas informações, notícias bombásticas verdadeiras ou falsas sobre os candidatos, traições, mudanças ambientais etc. Para se realizar uma pesquisa é necessário um planejamento muito rigoroso para a seleção da amostra que vai representar a população como um todo, incluindo nele os dados demográficos do país, como o percentual de mulheres e homens, a divisão por faixas etárias, níveis de renda, estados civis, nível de escolaridade, local de residência, religião, grupo étnico. Quem paga as pesquisas? Os institutos de pesquisa trabalham por encomenda de órgãos de imprensa, governos, partidos ou fazem as pesquisas e vendem os resultados para serem publicados com exclusividade por este ou aquele órgão de imprensa. Aí vem a pergunta: como pesquisar 2000 pessoas e projetar os dados para os mais de cem milhões? Para entender isso, é preciso ter em mente que uma parte de um todo em geral representa a totalidade. Por exemplo: se cortarmos um pequeno pedaço de uma maçã e submetê-lo a uma análise, podemos descobrir quais as vitaminas, açucares, fibras e nutrientes que estão presentes numa fruta inteira. Outro detalhe importante é a equipe de coleta de dados que precisa ser confiável e bem treinada. Poderia ocorrer a falsificação de dados por um entrevistador? Sim, é possível, mas os bons institutos de pesquisa checam por amostragem os seus entrevistadores e caso encontre um deles com dados falsificados, todas as entrevistas que ele fez são descartadas. Ninguém quer perder um mês de trabalho por uma bobagem. Outro aspecto importante é que o número de entrevistados numa pesquisa tem um ponto ótimo, ou seja, a partir de um determinado número de entrevistas, os resultados vão se repetir indefinidamente. Portanto, não adianta entrevistar cem mil pessoas (que seria inviável) que os resultados vão ser muito próximos da amostra com apenas 2000 ou 2500. E por fim, a margem de erro, que representa a probabilidade de erro numa determinada amostra. A margem de erro é calculada com base em sofisticadas técnicas estatísticas.

LULA VERSUS BOLSONARO

A última pesquisa Datafolha indica que se nada de novo acontecer, Lula poderá vencer as eleições ainda no primeiro turno. É importante observar que não são somente os percentuais que cada candidato tem na preferência dos eleitores. Existem outras informações bastante relevantes para dar sustentação ao prognóstico, como o índice de rejeição de cada candidato. Bolsonaro tem 55% e isso indica que não passará dos 45% de votos se sua candidatura crescer fortemente até às eleições. Enquanto o Lula, com uma rejeição de 35%, pode alcançar teoricamente até 65% dos votos. É uma vantagem e tanto para o ex-presidente. Outro dado relevante apurado pelo Datafolha, é a avaliação do atual presidente em que 55% dos eleitores o consideram como ruim e péssimo. Sem dúvida um dado muito ruim para quem quer se reeleger. Outra informação levantada é que apenas 17% dos eleitores acreditam em tudo o que o presidente fala. Isso indica que nem todos os possíveis eleitores dele acreditam nele, o que também é ruim para um candidato, pois parte dos seus eleitores poderiam em tese migrar para outro candidato com mais credibilidade. A chamada terceira via se apresentou com a candidata Simone Tebet, resultado da aliança entre dois partidos: PMDB e PSDB e apesar da exposição que teve na mídia nos últimas dias, não deu sinais de vitalidade. Concorrer com dois candidatos, sendo um que já foi presidente por dois mandatos e saiu com grande aprovação e um presidente atual que está todos os dias em exposição de forma positiva ou negativa, não é tarefa simples. Outro detalhe importante: no Brasil o voto é muito personalizado e focado no carisma dos candidatos. Diferentemente dos EUA onde a maioria dos eleitores são republicanos ou democratas, como também nos países europeus em que há uma preferência partidária. Por aqui temos essa tendência cultural do personalismo populista. Isso é antigo entre nós. Tivemos o getulismo que durou décadas, o ademarismo, o janismo, juscelinismo, brizolismo, malufismo, lulismo e agora bolsonarismo. Sem o carisma político dos dois candidatos, dificilmente Simone poderá emplacar. Para ser viável, teria que atrair os eleitores Bolsonaristas que não sejam fanáticos ou seja: entre 10 e 15%. Com isso ela poderia tirar o Bolsonaro da corrida para o segundo turno, quando tentaria atrair os eleitores de centro que tendem a votar no Lula. Como o MDB está dividido, com parte dos candidatos a governador apoiando Lula e o mesmo ocorrendo com o PSDB que se divide entre Lula e Bolsonaro, a candidatura de Simone não para em pé. Ciro Gomes, por sua vez, não deslancha e pode ficar a ver navios, caso seus eleitores resolvam optar pelo voto útil em Lula, o provável herdeiro pela proximidade ideológica. Como 70% dos eleitores já definiram quem será seu candidato, temos 30% que poderão oscilar entre um e outro, confirmando a vantagem que Lula tem até o momento. Enfim, se nada mudar teremos um presidente eleito já no primeiro turno e que ficará quase três meses esperando para tomar posse sob chuvas e trovoadas.

BILHETE PREMIADO

BILHETE PREMIADO Era uma quinta-feira, véspera de um feriadão. O office-boy ia sair para fazer serviço externo e muita gente do departamento aproveitou para pegar um dinheirinho para o final de semana. Naquela época, ainda não existiam agências bancárias nas empresas e era comum os salários serem pagos em dinheiro. Os riscos de assaltos fizeram com que as empresas optassem pelos depósitos em bancos. O garoto era bastante responsável e ninguém imaginava que ele pudesse ser abordado por um malandro e levasse o dinheiro dos colegas. Mas Edinho encontrou um outro tipo de sujeito, que naqueles tempos andavam a solta pelas ruas. Era o vigarista, sujeito com lábia fora do comum que atuando com um comparsa, iludia até os menos incautos. Um deles ficou no banco observando quem sacava dinheiro vivo e depois avisou o comparsa. O vigarista aproximou-se do Edinho ofereceu-lhe um bilhete que dizia premiado. Com a ajuda do cumplice, iludiu o menino, convencendo-o que seria um bom negócio trocar o dinheiro pelo bilhete que era muitas vezes mais do que ele tinha na sacola. Hoje, bastaria arrancar a sacola do menino e correr, mas naqueles tempos existia uma “ética” em que era melhor convencer pela conversa do que pela força. O negócio foi feito e Edinho chegou radiante no escritório para contar a novidade para os colegas. Ninguém acreditou de imediato e acharam que ele estava brincando. Mas não era brincadeira. Ele comprou mesmo o tal bilhete. Foi um choque geral, pois teve gente que tirou o dinheiro para pagar o aluguel, outros para fazer as despesas de mercado. O que fazer? Como o pai do Edinho era um antigo funcionário da empresa, ele foi chamado para reparar as perdas e danos. Era muito dinheiro para o seu bolso de operário e quase dava o seu dava o seu ganho mensal. Além disso, alegou e com razão, que não era correto dar essa responsabilidade para um garoto. A situação ficou tensa, pois caso o pai não reparasse o prejuízo, o menino até poderia perder o emprego e arruinaria a sua carreira, pois o pai lutou muito para conseguir uma vaga para o filho naquela grande empresa. E foi assim que o seu João, um velho mecânico, se desfez da suada poupança e quitou todos os prejudicados pela ingenuidade do seu menino. Chegando em casa Edinho levou uma surra de cinta para largar de ser idiota e passou a entregar religiosamente o salário para o pai. João, criado às antigas, acreditava que só uma surra colocaria o menino nos eixos. Quanto ao bilhete premiado, os colegas colocaram num quadro e penduravam numa parede do departamento para nunca mais ser esquecido. Entrou por uma porta e saiu pela outra quem quiser que compre outro bilhete.

JOSÉ DE ARAÚJO VILLAR (1937 - 2022)

Villar é um velho amigo, amigo daqueles que quando você tem um problema ele não diz vou ajudá-lo, mas vamos resolvê-lo juntos. Generoso ao extremo, sempre estava disposto a ouvir e a participar de soluções. Quem conviveu com ele, sabe sobre o que eu estou escrevendo. Sua vida profissional se confundiu com as grandes amizades que cultivou ao longo de sua carreira, sempre bem-sucedida. Sempre tinha uma solução para todas as situações fossem complexas ou triviais. Sempre calmo e sereno, abria seu coração para todas as pessoas, fossem amigos, funcionários ou subordinados. Sabia ser duro quando se fazia necessário, mas sem nunca perder a ternura, como diria um velho idealista. Gostava de lembrar sobre as dificuldades que passou numa família numerosa e sem muitos recursos. Foi estudar num seminário católico como única maneira de conseguir melhorar de vida. Como não tinha vocação para o sacerdócio, foi buscar a sua realização pessoal estudando e sempre se aperfeiçoando. Cursou Economia, mas foi como gestor de recursos humanos que encontrou uma forma de ajudar as pessoas a ser bem-sucedidas na vida e no trabalho. Depois de longos anos labutando na área, concluiu um mestrado em gestão de RH pela PUCSP e partiu para novas aventuras, treinando profissionais e ajudando empresas a melhorarem o desempenho através das pessoas. Como profissional bem-sucedido, também lecionou em cursos de graduação e pós-graduação, sempre compartilhando conhecimentos com muitos jovens. Aprendi muito com o Villar. Fosse como companheiro de grupos de gestão de pessoas, como consultor ou como como parceiros em cursos e treinamentos de gestão em várias organizações. Tinha um olhar crítico sobre a forma com que muitos empresários e gestores conduziam as suas empresas, mas ao mesmo tempo era um humanista incorrigível. Acreditava nas pessoas e nas suas capacidades de resiliência para superar problemas. Jamais considerava alguém descartável, pois sempre via no ser humano a potencialidade de superação de fraquezas e dificuldades. Era um empreendedor nato. Estava sempre procurando algum desafio, fosse no desenvolvimento de novas estratégias de cursos e técnicas pedagógicas, fosse em novas atividades como empresário. Quando percebia que um empreendimento não iria vingar, não desanimava e começava a pensar em outras possibilidades para criar negócios e gerar empregos. Uma de suas últimas cartadas foi concluir uma graduação em Biomedicina depois dos setenta anos, numa busca de aliar a gestão de pessoas às ciências biológicas. Esse é um pequeno retrato de um grande e generoso amigo, especialista em fazer amizades e ajudar pessoas, que partiu hoje para uma nova e definitiva viagem, talvez buscando uma nova alternativa à esquerda da constelação Orion, sempre procurando novos caminhos e desafios. Perdemos a sua companhia física, mas continuaremos cultivando os ensinamentos e ideias que plantou durante sua rica existência. Deixo para Cecília e seus filhos Helenice Scapol Villar e Heitor Villar, meus sentimentos pela perda do companheiro e pai. Evoé José Villar. Até qualquer dia.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

GOLPE OU REVOLUÇÃO?

Hoje completa 58 anos do Golpe Militar de 1964 e ainda se discute se foi golpe ou foi um “movimento”. Palavras... Na Ciência Política golpe é quando ocorre a derrubada pela força de um governante constitucional, ou seja, foi eleito por voto direto ou indireto de acordo com as regras estabelecidas na carta magna de um país. Golpe é um termo considerado pesado e os militares não gostavam e ainda não gostam e preferiam Revolução e hoje Movimento. A bem da verdade o golpe foi o resultado de um complô entre políticos conservadores, empresários, parte da igreja católica e militares. Mas depois de assumirem o poder, os militares chegaram à conclusão que eles governariam melhor o país do que os civis e lá se foram vinte anos com o país sob o domínio dos coturnos. Era uma ditadura envergonhada que fazia eleições para “inglês ver”. Escolhiam os presidentes nos quartéis e depois mandavam os congressistas votarem neles. A diferença das outras ditaduras é que não havia continuísmo. A cada quatro anos escolhiam um novo general. Por outro lado, era uma ditadura igual as outras, pois censurava a imprensa, músicas, teatro, livros e cinema. Cassava o mandato dos políticos que discordavam, prendiam, torturavam e até matavam artistas, líderes sindicais, jornalistas, professores e intelectuais, que faziam oposição ao governo. Lembro-me muito bem dos acontecimentos de 1964. O presidente João Goulart, assumiu o governo para substituir Jânio Quadros que renunciou. Na época o vice-presidente era eleito separadamente e não numa chapa como é hoje. No dia do Golpe, meu pai estava preocupado com os acontecimentos políticos e como era um menino curioso já me interessava por política, fiz a ele várias perguntas que não conseguiu me responder. Foi então que ele me pegou pelo braço e fomos conversar com um amigo político que morava num bairro próximo. Seu Manoel, um vereador que oscilava entre uma postura conservadora e progressista. Foi uma longa conversa que fiquei ouvindo calado, pois criança não podia entrar em conversa dos adultos. Ele também não sabia o que iria acontecer, mas tinha algumas pistas. Jango não voltaria mais para Brasília, pois ainda em solo brasileiro o cargo de presidente foi considerado vago, abrindo as portas para um general assumir o governo. Pensava-se que seria por pouco tempo, apenas o suficiente para tirar os “comunistas” do poder e em seguida seriam convocadas novas eleições. As eleições nunca vieram e a democracia brasileira viveu uma longa noite em trevas. Antes do Golpe, ouvia várias conversas em casa, nos ônibus, no armazém ou na padaria e uma delas me lembro muito bem. Um senhor bem-falante dizia que se ocorresse uma revolução, " o Jango não ficaria no poder, pois era um latifundiário, não um socialista, mas um burguês. Ele seria o primeiro a espirrar, assumindo o comando do país um comitê revolucionário". Em geral o Jango era querido pelo povão como um todo, pois seu discurso populista, ia ao encontro das necessidades dos mais pobres. As chamadas Reformas de Base assustavam muita gente. Meus parentes fazendeiros do interior estavam preocupados, pois os lavradores já falavam em reforma agrária, em divisão dos latifúndios, coisa e tal. O termo mais utilizado na época e durante muito tempo era a Revolução Redentora, que havia salvo o país do comunismo. Meu pai mesmo apoiando o Jango, não era comunista e tinha horror de ouvir falar nisso. Ele votou no Jango para vice-presidente, mas não no Jânio porque o detestava e o considerava falso e mentiroso. Ele tinha uma visão bem negativa do comunismo, pois nosso vizinho russo contava para ele as atrocidades dos comunas quando tomaram o poder sob o governo do Stalin. Ele e sua família conseguiram fugir caminhando durante dias até a fronteira passando fome e frio. Após quase vinte anos os militares entregaram o poder aos civis, mas cuidadosamente, para evitar retaliações. Antes fizeram uma anistia ampla, geral e irrestrita, para que todos fossem perdoados. Com uma hiperinflação e uma dívida externa impagável, deixaram a batata quente com os civis e o Brasil entrou em moratória. Hoje temos um presidente eleito pela maioria da população, que defende explicitamente a ditadura militar e as medidas de exceção, enquanto um governador em seu discurso para a renúncia do cargo para se candidatar a presidente, lembrou da ditadura militar que obrigou seu pai a se exilar na França com a familia, quando ele era um menino de 7 anos.

O NACIONALISMO E AS GUERRAS

O NACIONALISMO E AS GUERRAS O nacionalismo é uma das mais nefastas ideologias, pois sob o pretexto de defender os interesses nacionais, foi ao longo da história o responsável por quase todas as guerras. Na maioria das vezes as guerras são incentivadas pelas burguesias industriais, comerciais ou financeiras, que induzem os governantes a atacarem países concorrentes de seus produtos ou para ampliar os mercados. Outras vezes o desejo de um governante se perpetuar no poder ou para se manter nele quando se sente fraco. Se lança às aventuras e como sempre acontece colocando o povo para morrer pela pátria e ou viver sem razão como diz uma velha canção. A narrativa do Putin para invadir a Ucrânia se insere no segundo caso. Um governante querendo afirmar seu poder autoritário, alegando que o país vizinho fazia parte da Rússia e por isso não deve ser uma nação independente. Ele justifica a invasão alegando que está defendendo os interesses do povo russo. Do povo russo? Que cinismo. Que interesses teriam os russos em incorporar uma nação apenas por razões étnicas e históricas? Os povos criam as suas identidades a partir do isolamento por razões geográficas, políticas e culturais. A partir do momento em que se criou uma identidade como povo, não há possibilidade de retorno às condições anteriores. O próprio Lenin, líder da Revolução Russa de 1917, quando reconheceu essa identidade, criando a República da Ucrânia, com certeza não fez isso do nada. Havia razões históricas, políticas, culturais e sociais para essa decisão. Marx, era um crítico do nacionalismo, pois o considerava um atraso político que atrapalhava o pleno desenvolvimento da consciência de classe. Via essa ideologia como válida apenas quando se tratava de uma luta para a autodeterminação dos povos. No entanto, quando essa autodeterminação só servia para atender aos interesses da burguesia, perdia todo o sentido, pois segundo ele, o povo continuaria sendo explorado pelo capital, agora nacional e não mais pelo colonizador ou nação dominante. Zelensky, apesar de defender o território invadido de forma ilegal, sem um motivo justificável, também apela pelo nacionalismo do povo ucraniano, mas no caso existe um sentido libertário. Ceder ao governo russo seria abdicar do direito do povo ucraniano decidir o seu destino como nação e se submeter ao autoritarismo de Putin. Durante mais de 60 anos os ucranianos, como também todos os povos da antiga URSS, foram submetidos a governantes totalitários, começando com Lenin e depois o cruel Stalin durante 25 anos. Nunca houve democracia no socialismo soviético. As pessoas desapareciam ou eram deportadas para a Sibéria sob qualquer suspeita de questionamento sobre o regime. Os mais velhos devem se lembrar de uma época em que morria um general quase todos os dias. Era muita coincidência. Mesmo revolucionários de primeira hora foram perseguidos e presos com as mudanças de humor do ditador de plantão. E assim, quando chega a oportunidade de se libertarem do jugo autoritário, o nacionalismo russo é usado como pretexto para a Ucrânia se tornar novamente num protetorado russo. Hitler quando resolveu invadir outros países alegando que na Checoslováquia e Polônia existiam cidadãos alemães, na realidade queria mesmo expandir o território germânico e ampliar o controle sobre o comércio em toda Europa. Solano Lopes no século XIX, queria expandir o território paraguaio até o Oceano Atlântico. Para isso, iniciou uma guerra absurda com o Brasil, Uruguai e Argentina que levou a população ao quase genocídio, restando velhos, mulheres e crianças. O General Galtieri, ditador argentino, nos anos 1980, tirou da gaveta uma velha reivindicação dos argentinos sobre as ilhas Malvinas, que estão sob o poder inglês há quase duzentos anos e decidiu invadir as ilhas. Levou uma surra que destruiu a vida de milhares de jovens apenas para mantê-lo mais tempo no poder medindo forças com uma grande potência militar. Derrotado, logo caiu, pois ninguém se sustenta no vácuo. A história está repleta de exemplos de movimentos nacionalistas que resultaram no sofrimento das populações, com grandes hordas de refugiados, crianças órfãs, viúvas com filhos sem amparo, aleijados e economias arruinadas. Será que a pátria amada compensa tudo isso?

domingo, 2 de janeiro de 2011

A TERCEIRA MARGEM DO RIO




A metáfora de “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, uma obra prima do conto brasileiro, é o esquecimento ou alheamento de tudo. Uma tentativa de buscar um mundo de sonhos, de afastamento das coisas reais para viver numa outra dimensão. É a história de um homem que, sem mais, nem menos, para o estranhamento da mulher, dos filhos e dos amigos, manda fazer uma canoa, despede-se e parte para uma viagem sem retorno. Uma viagem que não é uma viagem. É um desligamento da vida, das coisas materiais, das relações pessoais.  Ele estava ali, a vista, mas distante de tudo e de todos.
            A alienação  é constante na literatura. Em Rei Lear, de Shakespeare, o pai resolve, em vida, repartir seu reino entre suas filhas. Uma delas, a sua preferida,  considera a sua  decisão insensata. Ofendido por isso, ele a deserda. No final , já demente,  é abandonado pelas filhas herdeiras e é amparado pela filha deserdada.
             Dom Quixote de La Mancha, ao embriagar-se das novelas de cavalarias no século XVI e resolver sair pelo mundo como um cavaleiro andante, também buscou a sua terceira margem do rio para se desvincular do mundo real que o oprimia. Dom Quixote, como personagem, vivia entre o real e o imaginário e por vezes interpretando o real através das suas fantasias.  Cervantes faz uma profunda ironia com o seu personagem, pois em nossos dias, muita gente vê, tal como na época do autor, monstros em moinhos de ventos. Pessoas que se dizem abduzidas por seres extraterrenos, com visões de naves espaciais que nunca foram comprovadas. A loucura pode ser vista como positiva, quando o louco reproduz os interesses de segmentos da sociedade. Assim, muitos loucos estão na mídia, fazendo proselitismo de suas idéias religiosas, políticas ou mesmo artísticas.
            O personagem de Cervantes tem um comportamento intelectualmente racional quando procura explicar a importância dos cavaleiros andantes na defesa da ordem, dos injustiçados e das donzelas desamparadas, mas quando vê o real a partir da ficção, cai em descrédito.
            O seu fiel escudeiro, um mentecapto interesseiro, que mesmo tendo consciência de que o seu amo está mais para a loucura do que para a sanidade, continua insistindo em acompanhá-lo, na perspectiva de que possa algum dia receber alguma recompensa.  O escudeiro é também esperto o suficiente para enganar Quixote para evitar que este faça mais loucuras. Mas é também um insano obcecado pela ambição.
            Outra obra genial que trata da loucura ou da perda do discernimento é o Alienista de Machado de Assis. O médico Simão Bacamarte, de tanto ver insanidade nos outros, acaba percebendo-se também insano. O gênio de Machado deixa  então a dúvida  se a insanidade e a normalidade não estariam tão próximas que às vezes podem se confundir na complexidade das relações humanas.
            Quixote, Bacamarte e o Velho da “terceira margem do rio”,  não seriam personagens que vivem entre nós nas escolas, nas empresas, na política, no governo, nas ruas, nos bares? A normalidade parece ser relativa e assim pode depender do ponto de vista. Quantas vezes não refletimos sobre a sanidade de conhecidos,  parentes e amigos? Não seria também uma atitude de modéstia refletir sobre nossos próprios atos? Isso, convenhamos,  é bem mais complicado, pois nossa vaidade não deixa chegar ao ponto de admitirmos que nem sempre somos normais. Normais? Afinal o que é normalidade?

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

CID NARDY, UM GRANDE MESTRE


Meu primeiro contato com o Cid Nardy foi através de sua dissertação de mestrado sobre cultura organizacional, a qual utilizei como referencial teórico em minha dissertação sobre o impacto da cultura nos sistemas de remuneração.
Tempos depois nos encontramos por acaso em um colégio paulistano para participarmos de palestras sobre carreiras profissionais. Houve uma inversão na ordem das palestras e fomos apresentados para discutirmos quem iria fazer a palestra em primeiro lugar.  Lá estava o Cid Nardy que eu conheci pelo seu trabalho acadêmico. Era um sujeito alto, com vasta cabeleira branca, aparentando mais idade do que realmente tinha. Sua simpatia era irradiante,  sua voz tinha uma entonação suave e calma.  É claro que entabulamos uma boa conversa e quase nos esquecemos das palestras. Lembro-me ainda que o Cid estava preocupado com mais dois compromissos à tarde e até brinquei com ele sugerindo que deveria “pegar mais leve”, que a vida era curta.
Algum tempo depois eu tive o prazer de convidá-lo para uma palestra na FEI sobre o seu livro “Desafios da Mudança” e também por outro motivo muito especial: ele foi aluno da FEI-ESAN, em São Paulo no curso de Administração. É dispensável falar que a palestra foi  muito bem conduzida pelo Nardy e ele se sentiu bastante emocionado por participar de um evento na instituição em que ele se graduou como Administrador. Apesar de ser também engenheiro, era na carreira de Administrador que ele se identificava mais profundamente, fato que o levou a participar durante longos anos da diretoria do Conselho Regional de Administração.
Foi, portanto, com tristeza que soube, através de um amigo comum, o prof. José da Cunha Tavares do seu falecimento. Foi realmente uma pena que o Cid tenha partido tão cedo, quando ainda tinha tanto para contribuir com o ensino de Administração e com a formação dos nossos jovens.
Seu nome me fez lembrar o herói espanhol El Cid, cuja nobreza de caráter era cantada em prosa e verso. Dizia-se que era um tão nobre súdito para tão pouco nobre rei. Sobre o Cid tenho a dizer que era um tão nobre mestre para uma vida tão curta.

Renato Ladeia
FEI

sábado, 5 de junho de 2010

A ÉTICA E O MEIO AMBIENTE

“Com o tipo de instrumentos que hoje manejamos, se não houver um comportamento ético, ou seja, uma pré-disposição individual e institucional de buscar o bem comum, o que conseguiremos será a destruição” (Ladislau Dowbor).


O momento é extremamente rico para algumas reflexões acerca da ética de um modo amplo, pois há uma preocupação sintomática na sociedade, senão generalizada, pelo menos tem estado presente em quase todos os meios de comunicação, nas universidades, nos debates públicos, nos partidos políticos, nas escolas etc. Afinal o que é ética? Fala-se muitas vezes em ética no sentido de regras, de leis, normas etc. Ética é muito mais do que isso. Os casos veiculados pela mídia sobre corrupção nos poderes executivo, judiciário e legislativo, há muito saíram do campo da ética e se enquadram em categorias de crimes, estelionatos e por ai afora.

A transgressão de leis explícitas que estabelecem o limite entre o que é público e o que é privado, sai do campo ético, passando para o criminal, pois a ética pressupõe valores de consciência moral. Como escreveu o filósofo Emmanuel Kant: A vontade só pode ser considerada moralmente boa ou má se é livre. Assim, a primeira condição para a possibilidade de consciência moral é a liberdade da vontade. Dessa forma, uma atitude ética pressupõe a liberdade de opção do indivíduo entre um ato bom ou mau. Caso a opção for pelo ato mau, ele não sofrerá nenhum tipo de punição, pelo menos de natureza penal ou econômica.

As atitudes do ser humano em relação ao meio ambiente, aos poucos estão deixando a categoria de problema ético para ingressar em uma categoria que chamaríamos de penal, pois a humanidade está assumindo uma posição mais categórica em relação aos riscos da degradação ecológica. Por outro lado, mesmo quando as sociedades estabelecem leis explícitas quanto à utilização de determinados produtos químicos, despejo de poluentes em rios e na atmosfera, desmatamentos etc., se não existirem mecanismos de controle e punição eficientes poucos vão respeitar as regras. Este problema é endêmico em nosso país e estaria possivelmente relacionado a uma cultura tradicionalmente avessa às regras e normas e que tudo pode ser resolvido através do “jeitinho” ou “molhando” a mão do fiscal ou outra autoridade superior.

Infelizmente, em nosso país ainda predomina, de forma cruel, a lei do individualismo, fruto do racionalismo desvinculado das emoções e da percepção do outro. O interesse pelo outro só ocorre quando pode ser utilizado como instrumento para a satisfação de interesses personalistas ou narcíseos. Essa concepção alcançou seu apogeu no final do século XX e está inserida na ideologia do sistema capitalista, que busca a eficiência em termos de resultados financeiros acima de qualquer outro valor humano. O que importa é a realização do projeto individual em todos os campos da atividade humana seja na vida privada ou através das organizações que manipulam de forma eficiente a possibilidade de realização dos desejos de consumo, poder e exposição na mídia. A organização cujo único objetivo esteja centrado na busca do resultado contábil estimula de forma perversa a destruição do outro sem ter consciência de que poderá ser ela mesma vítima desse processo. As organizações deste tipo, de um modo geral, tratam também as pessoas como meros números e não geram nos indivíduos o envolvimento com relação à instituição, pois na busca do sucesso contínuo, geram milhares de seres humanos excluídos.

Não havendo uma ética da reciprocidade, não pode haver vínculos possíveis entre os indivíduos e as instituições em que trabalham, estudam ou das cidades em que moram. A lógica desse sistema ideológico fundado na perversão (paixão mecanicista desvinculada da emoção humana, do amor, da solidariedade) pode levar a humanidade à sua própria destruição, pois não são incutidos nos indivíduos, através das famílias, das escolas e das organizações empresariais ou públicas a cidadania em seu sentido mais profundo, ou seja, o respeito pelo outro. Esta babel gerou também a consciência egoísta dos direitos, no sentido também de satisfazer apenas as necessidades individuais, sem a preocupação com os deveres.

A emergência de uma discussão ética com relação a comportamentos relacionados não só com o meio ambiente, mas em relação a outros valores sociais, que são considerados normais por sua prática usual por políticos, funcionários públicos, empresários e cidadãos de modo geral, pode ser o resultado do início de uma revolução moral em nossa sociedade. Assim, torna-se fundamental estimulá-la em todos os espaços possíveis e, principalmente, nos lares, onde se forja a estrutura básica de um cidadão.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

CARROS: UMA AGENDA SEM FUTURO



A grave crise pela qual estão passando as indústrias automobilísticas, principalmente as norte-americanas, não é apenas decorrente do colapso econômico global, mas uma crônica de morte anunciada. De nada adiantarão as injeções de recursos públicos para salvá-las. As fusões, incorporações e aquisições somente darão um pequeno fôlego para esta indústria sem futuro. O problema começou, verdadeiramente, com Henry Ford em sua firme disposição de criar condições para que toda família de trabalhadores pudesse ter o seu Ford T. Nada contra o idealismo do lendário capitão da indústria, cujas idéias estavam ligadas ao processo de expansão constante do capitalismo, pois ninguém ousava pensar, naquela época, que o automóvel se tornaria em um bem acessível a milhões e milhões de pessoas em todo o mundo. Tampouco alguém ousaria imaginar ou denunciar o impacto ambiental e social desta máquina. De qualquer forma ninguém daria ouvidos a tão descabida preocupação na época.
Os governos, de todos os países do mundo, dirigiram investimentos públicos para facilitar o tráfego dos veículos motorizados, como grandes e largas avenidas, viadutos, pontes, garagens etc. Em função desta opção, os investimentos em transportes públicos, salvo honrosas exceções, foram colocados em segundo plano. As cidades foram adaptadas ao automóvel e não ao Homem. Em países como o Brasil, as ferrovias foram abandonadas, o transporte fluvial ou de cabotagem não chegou sequer ser cogitado pelos governantes, mais preocupados com o imediatismo e nunca com o longo prazo.
As cidades se agigantaram, de Metrópoles se tornaram Megalópoles, com a concentração urbana exigindo mais e mais investimentos públicos em saneamento básico, educação, saúde, infraestrutura e transporte. O custo de transportes coletivos como o Metro, única saída para contornar os congestionamentos nas ruas e avenidas, é extremamente alto, tornando praticamente impossível o atendimento da demanda crescente por esse meio de locomoção. Precisaríamos de três ou quatro vezes mais linhas do que temos hoje. A ampliação dos limites da cidade de São Paulo, que se conectou as cidades vizinhas, tornou simplesmente imperceptível os limites geográficos. Trabalhadores do ABCD se deslocam diariamente em direção à capital e vice-versa. O mesmo ocorre com outras cidades vizinhas a oeste, leste e norte, tornando a idéia de municípios, com administrações separadas, uma utopia. Dessa forma, a região metropolitana de São Paulo já necessita de linhas de Metro para todas as cidades vizinhas.
Os ônibus se tornaram inviáveis como alternativa de transporte, pois o aumento da frota esbarra no mesmo obstáculo: onde circular? Ruas preferenciais exigem altos investimentos e também uma severa fiscalização, o que aumentaria seus custos de manutenção. Assim nos encontramos no velho dilema: aumentar as ruas ou diminuir o tamanho dos veículos? Recentemente foi publicada uma estatística em que se todos os veículos da cidade de São Paulo fossem para as ruas e ficassem alinhados, não haveria espaço para circulação. Por sorte, muitos veículos permanecem em suas garagens boa parte do dia. Entretanto, outro dado bastante alarmante é o número de carros novos licenciados na cidade: cerca de 20 mil por dia.
Estamos caminhando para o caos e parece que ninguém está preocupado com o futuro. O futuro? Ora o futuro é para as próximas gerações, dirão os políticos, mais focados no sucesso imediato de sua gestão. Não há compromisso político com o futuro, pois o período de quatro anos mal dá, para políticos convencionais, angariar patrimônios eleitorais que garantam as próximas eleições. E como ninguém quer se preocupar com o futuro, vai se deixando as coisas como estão e enfiando a cabeça na terra como faz a avestruz.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

EXTRATERRESTRES



Revendo quase por acidente o filme ET em que um extraterrestre é apresentando como um pequeno monstrinho sensível e delicado, observa-se um grande contraste com as declarações de pessoas que se dizem abduzidas pelos seres de outros planetas. Umas duas mulheres que relataram os seus “casos” com alienígenas, revelaram que eram altos, loiros e com olhos azuis. Essas pessoas juram por todos os deuses que tiveram filhos destas relações e não ficam constrangidas em mostrá-los na televisão. A entrevistadora faz expressão séria ao formular as perguntas sobre como ocorreram as abduções. A cena me fez lembrar do livro de Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios em que o autor procura desmascarar, através de explicações fundamentadas na ciência, esses depoimentos sobre encontros com extraterrestres. Sagan não usou meias palavras para criticar esse modismo contemporâneo. Lembra o físico e astrônomo que não há registro histórico de contatos com seres extraterrenos nos séculos anteriores aos livros de ficção de Julio Verne ou antes da famosa locução do ator norte-americano Orson Welles sobre a invasão da terra utilizando um texto de H.G. Wells. Até então só temos registros de aparecimentos de personagens religiosas.
Nos anos setenta do século passado foi publicado um livro chamado Eram Deuses os Astronautas de Von Danicken, tentando provar que algumas obras arquitetônicas foram obras de seres alienígenas que visitaram a terra em tempos idos. O livro foi convincente e eu mesmo embarquei na história, pois acreditava na possibilidade concreta de que a terra não poderia ser o único planeta habitável do universo. Considerando a existência de trilhões de estrelas no centro de possíveis sistemas solares, nada seria mais lógico e racional do que aceitar a possibilidade de haver vida em outras partes do universo. Sagan, que era um profundo conhecedor de astronomia – dentro das tecnologias disponíveis pelo atual estágio da ciência, não descartava esta possibilidade, mas coloca também a hipótese de que a terra seja também pode ser o único exemplo de vida em todo o universo. Caso haja mesmo vida inteligente fora da terra, as dificuldades para contato serão as mesmas que encontramos atualmente. Como o universo tem a mesma idade e o processo evolutivo teria ocorrido paralelamente em todos os sistemas solares, estaremos no mesmo estágio de outras “Terras” em termos de desenvolvimento tecnológico. Considerando também as distâncias existentes, mesmo dentro de um mesmo sistema solar, as probabilidades de contato ou de viagens interplanetárias seriam, no mínimo, bastante complicadas. Eventuais viagens no futuro talvez somente sejam possíveis através de fetos congelados.
Por outro lado, parece um tanto óbvio que viajantes alienígenas não se dariam ao trabalho de ficar bisbilhotando a terra sem a preocupação de fazer algum contato inteligente para eventuais intercâmbios tecnológicos ou culturais. Alguns estudiosos de OVNIS afirmam categoricamente que a força aérea americana e a NASA escondem tais fatos da população para evitar turbulências. Ora essa! Será que com tanta gente informada sobre o assunto (pilotos, militares, políticos, técnicos etc.) ninguém sairia dando entrevista na mídia falada e escrita? Impossível.
Sagan, muito educadamente considera essas pessoas sinceras, mas paranóicas. Para ele, mesmo com um detector de mentiras não seria possível desmascarar essas pessoas, pois elas acreditam fielmente no que falam e defendem. Pessoas que vivem falando que ouvem vozes ou mantêm contatos com pessoas falecidas ou de outro mundo, são consideradas dementes e eventualmente vão para sanatórios. Entretanto, se são bem articuladas, entram para o seleto clube dos ovnianos e conseguem até a proeza de dar entrevista na televisão e em jornais. A história do matemático John Nash, prêmio Nobel de Economia que sofre de esquizofrenia e viu durante anos pessoas inexistentes com quem conversava, é um exemplo de como a mente humana é capaz de burlar a racionalidade.Sem mais delongas, devo dizer que se eventualmente existir vida inteligente fora da terra, provavelmente os ETs deverão parecer muito estranhos para nós, pois a vida teria se desenvolvido de forma bastante inusitada em outro planeta, mesmo em condições semelhantes às da Terra. Mas o mais intrigante mesmo é a pergunta que Ray Kurzweil faz em seu livro: A era das máquinas espirituais: Será que a vida inteligente é relevante no universo?

quarta-feira, 18 de março de 2009

OS NÚMEROS NÃO MENTEM





Os números dizem muito e para isto basta ter um pouco de paciência para ler as suas mensagens, fazendo alguns cálculos de aritmética básica para chegar à informações bastante intrigantes. Através do Relatório Desenvolvimento Mundial de 1993, editado pela ONU, pode-se verificar algumas projeções sobre o crescimento da população mundial até o ano 2030 que desperta algumas curiosidades para não dizer perplexidades. Vejamos alguns dados. As economias de rendas baixas e média, apresentavam em 1991, uma população total de 4,528 bilhões de habitantes, enquanto as economias de alta renda, 822 milhões de habitantes. As projeções para o ano 2000, que parecem bastante consistentes pelos números disponíveis na imprensa, indicam que as economias de rendas baixas e média, acrescentaram às suas populações no período de nove anos, algo astronômico como 766 milhões de novos seres humanos. Descendo a detalhes, verifica-se que somente nas economias de baixa renda, foram acrescidos 559 milhões de habitantes no período. Por outro lado, as economias de alta renda, tiveram um crescimento de apenas 6 milhões de habitantes num período de nove anos.

Sem querer fazer terrorismo malthusiano, os dados relativos ao PNB per capita, também neste mesmo relatório, indicam que as economias de renda média apresentaram em 1991, um PNB per capita de 2480 dólares anuais, enquanto as de baixa renda de 350 dólares anuais. Por seu turno, as economias de alta renda, chegaram a um PNB per capita de 21020 dólares anuais neste mesmo ano. Enquanto isso, as economias de baixa renda devem apresentar um crescimento demográfico médio anual da ordem de 2% até o ano 2000 e as economias de alta renda devem manter uma taxa média de 0,6%. Pelos dados é simples verificar que os países de renda baixa precisariam que o PNB per capita crescesse pelo menos trinta vezes em um período de dez anos para alcançar um PNB per capita equivalente a metade das economias de alta renda. Ainda assim, teria um outro detalhe: a taxa de natalidade teria que estar próxima de zero. Assim, com um crescimento anual do PNB entre 2 e 3%, e com um crescimento da população de 2%, é como a história do cão correndo atrás do rabo, ou seja, nunca chegaremos em tal patamar, pelo menos com a atual estrutura econômica.

Mantendo o atual nível de crescimento das populações dos países de baixa e média rendas, anualmente, mais de 100 milhões de novos seres humanos são acrescidos aos padrões subumanos de existência sem a perspectiva de crescimento econômico compatível. Como estas populações vivendo em condições precárias de saúde e educação fica cada vez mais difícil pensar na reversão deste quadro, ou seja, redução da taxa de natalidade e crescimento econômico sustentado. Enquanto os países de alta renda necessitam aportar relativamente poucos recursos em saúde e educação, pois contam com infra-estrutura adequada, os países de baixa e média rendas, necessitam de cada vez mais recursos para o atendimento das novas demandas decorrentes do crescimento da população.

MUNDIALIZAÇÃO: O CAPITAL FINANCEIRO NO COMANDO

MUNDIALIZAÇÃO: O CAPITAL FINANCEIRO NO COMANDO
FRANÇOIS CHESNAY

O sociólogo Chesnay parte da crítica aos conceitos utilizados para definir a nova globalização da economia, optando pela expressão mundialização da economia, que a seu ver, expressa de forma mais explicita o sistema capitalista de produção. Para ele a expressão mercado é utilizada como metáfora do sistema capitalista, fundamentado na propriedade privada dos meios de produção.
O fetichismo do capital financeiro transforma o dinheiro em algo que não tem relação com o processo produtivo, parecendo externo a ele, algo independente. O dinheiro adquire um sentido fantasmagórico, desvinculado da realidade concreta da sociedade capitalista. O autor desmistifica também o papel do Estado Nacional no processo de mundialização das economias, que longe de ser vítima, é um agente ativo, mostrando historicamente sua ação efetiva nas mudanças que abriram caminho ao capitalismo globalizado. A derrocada do mundo socialista foi, segundo o autor, precedida de providenciais mudanças construídas pela burocracia soviética, abrindo espaço para o triunfo do neoliberalismo.
A globalização na busca da rentabilidade máxima mostra o caráter seletivo do capital ampliando o nível de desigualdade entre nações e povos. É, nas palavras do autor, uma homogeneização que gera heterogeneidade (ou uma igualdade que gera desigualdades). Tal como a sociedade dividida em classes, a mundialização cria também uma hierarquização entre os países no sistema de relações produtivas através da divisão internacional do trabalho.
Chesnay procura enfatizar o caráter sistêmico do processo de mundialização do capitalismo como a “totalidade sistêmica”, conjunto ordenado em torno da tríade (os três grandes centros do capitalismo mundial: EUA, Europa e Japão) Neste contexto, os Estados Nacionais sobrevivem, estreitando suas relações com o capitalismo mundializado. Assim, as possibilidades de expansão só se tornaram possíveis a partir das ações políticas desenvolvidas pelos Estados Nacionais. As possibilidades do modelo estão ancoradas numa ampla base internacional que possibilita a “jogatina” financeira, manejando os capitais de acordo com a rentabilidade oferecida num universo com fronteiras bastante permeáveis para sua ação. As finanças comandam o nível e o ritmo de acumulação do capitalismo, determinando onde e quando ampliar a capacidade produtiva, enfraquecendo assim, a possibilidade de resistência dos assalariados.
Os países em desenvolvimento ou economias periféricas ficam na dependência da avidez do capital financeiro por altas e contínuas taxas de acumulação (juros sobre juros). Esses capitais revoam o globo à procura de novas vantagens competitivas como reservas de matérias-primas e recursos naturais, dimensão do mercado interno desses países e mão-de-obra qualificada, barata e com relações de trabalho com pouca regulamentação (poucos impostos e quase nenhum controle).
As crises financeiras longe do diagnóstico clássico, são a rigor, resultantes da impossibilidade de se assegurar acumulação suficiente para atender ao voraz apetite do capital mundializado. Assim, o capital bate em retirada, realizando lucros diante o menor ruído de ameaça, jogando esses países periféricos em profundas crises econômicas e financeiras.
A abordagem de Chesnay invoca em vários momentos o caráter sistêmico da mundialização do capital, sugerindo que a crise que assola os países periféricos e em menor grau os países do chamado primeiro mundo, não é individual ou localizada, mas está inserida numa esfera mais ampla e, portanto, sem solução no contexto das receitas monetaristas clássicas. A crise vai depender, portanto, da capacidade de realimentação do sistema para a manutenção do equilíbrio dinâmico.




O MAGNIFICO ESPETÁCULO



Renato Ladeia, abril 1999

Bernard Cassen, especialista em economia do Le Monde, na Universidade de São Paulo em 1999 foi demolidora. Olhava-se para os lados para procurar saber se realmente estava se falando do nosso mundo maravilhoso e “globalizado”. Eram apenas dados que um jornalista meticuloso e bem informado conseguira reunir e que com certeza estão diariamente nos jornais de todo o mundo, mas poucos têm tempo ou paciência para relacioná-los e concluir verdades que a maioria não quer ouvir, ler ou falar.
Os números são astronômicos, pois se referem a um volume de capital circulante pelo mundo em torno de 21 trilhões de dólares. Só o Japão tem 14% deste bolo monstruoso e aterrorizador. Qualquer mudança no deslocamento de pequena parte deste valor, cuja grandeza é quase impossível ter-se uma idéia clara, pode provocar mudanças drásticas nas economias dos países, principalmente países do terceiro mundo. Os operadores e investidores são atraídos através do efeito rebanho. Ninguém quer sair na frente, mas quando alguém resolve ir, todos vão atrás cegamente. Um operador de sucesso é sempre seguido e ninguém quer ficar sozinho. “Errar junto é melhor do que acertar sozinho”.
Os capitais agem, circulam, decidem independentemente dos países onde estão localizados, não há racionalidade, ética ou valores. O que importa na essência é o retorno líquido do investimento. A especulação sobre as moedas é algo dramático, podendo quebrar um país de um momento para outro. Repito: de um momento para outro. Quase dois trilhões de dólares mudam de mãos 10 a 20 vezes por dia e o volume total do comércio mundial num ano - que é fruto da economia real, concreta – é de seis trilhões ao ano. Assim, 297 dias de movimentação financeira é pura especulação e apenas três dias corresponde a realidade econômica do globo.
Há um divórcio absurdo entre ativos financeiros e ativos produtivos. A desconexão clara entre a economia financeira e a economia real, pode gerar uma crise de sérias proporções. Nos EUA, a variação das bolsas foi paralela ao desempenho da economia até 1980. Atualmente, o crescimento das bolsas é vertiginoso, sem nenhuma relação com a realidade econômica. As ações de empresas ligadas a Internet, valem mais do que as ações da Boing, uma empresa efetivamente produtiva, que gera bens de alta tecnologia e alto valor agregado. Há sinais precursores de um novo crack na bolsa dos EUA. O próprio presidente do Banco Central americano acredita que as ações destas empresas de mentirinha podem despencar de uma hora para outra, o que provocaria a destruição das políticas sociais de todos os países, como uma ogiva nuclear de assombrosa potência. A metáfora é verdadeira, pois no dia seguinte, economias, fortunas, padrões de vida, estariam todos destruídos.
A grande roleta gira sem parar, motivando a todos na busca de uma rentabilidade impossível, inimaginável, só visível dentro de um sistema movido pelo grande espetáculo, onde os atores estão vivendo a fantasia do paraíso capitalista. Os velhinhos americanos, japoneses, europeus, exigem através dos seus fundos de pensão, rentabilidades absurdas de 15% ao ano em economias que crescem 2%. Vive-se o momento, cada dia é dia de ganhar mais e mais. Não há limites para os especuladores.
A concentração de renda é cada vez mais cruel, sempre em benefício dos países do norte. O livre mercado sempre beneficiando os mais fortes. Os grandes blocos se impõem aos blocos mais fracos. Dentro dos blocos, há sempre os mais fortes, que impõem modelos eficientes de exploração. Procura-se plantar a ideologia da integração total, da abertura total, mas por ironia os países dominantes conseguiram seu poderio a custa de um protecionismo histórico.
O capitalismo se impõe em um espetáculo aterrorizante, que o mundo assiste embasbacado, como se nada pudesse detê-lo em sua inexorável marcha rumo à hegemonia total e irrestrita. Talvez fosse preciso que alguém suficientemente ingênuo – talvez uma criança – que apontasse para o palco e gritasse: “O rei está nu” – e o espetáculo ruiria como um castelo de cartas.
O MAGNIFICO ESPETÁCULO

Renato Ladeia, abril 1999

Bernard Cassen, especialista em economia do Le Monde, na Universidade de São Paulo em 1999 foi demolidora. Olhava-se para os lados para procurar saber se realmente estava se falando do nosso mundo maravilhoso e “globalizado”. Eram apenas dados que um jornalista meticuloso e bem informado conseguira reunir e que com certeza estão diariamente nos jornais de todo o mundo, mas poucos têm tempo ou paciência para relacioná-los e concluir verdades que a maioria não quer ouvir, ler ou falar.
Os números são astronômicos, pois se referem a um volume de capital circulante pelo mundo em torno de 21 trilhões de dólares. Só o Japão tem 14% deste bolo monstruoso e aterrorizador. Qualquer mudança no deslocamento de pequena parte deste valor, cuja grandeza é quase impossível ter-se uma idéia clara, pode provocar mudanças drásticas nas economias dos países, principalmente países do terceiro mundo. Os operadores e investidores são atraídos através do efeito rebanho. Ninguém quer sair na frente, mas quando alguém resolve ir, todos vão atrás cegamente. Um operador de sucesso é sempre seguido e ninguém quer ficar sozinho. “Errar junto é melhor do que acertar sozinho”.
Os capitais agem, circulam, decidem independentemente dos países onde estão localizados, não há racionalidade, ética ou valores. O que importa na essência é o retorno líquido do investimento. A especulação sobre as moedas é algo dramático, podendo quebrar um país de um momento para outro. Repito: de um momento para outro. Quase dois trilhões de dólares mudam de mãos 10 a 20 vezes por dia e o volume total do comércio mundial num ano - que é fruto da economia real, concreta – é de seis trilhões ao ano. Assim, 297 dias de movimentação financeira é pura especulação e apenas três dias corresponde a realidade econômica do globo.
Há um divórcio absurdo entre ativos financeiros e ativos produtivos. A desconexão clara entre a economia financeira e a economia real, pode gerar uma crise de sérias proporções. Nos EUA, a variação das bolsas foi paralela ao desempenho da economia até 1980. Atualmente, o crescimento das bolsas é vertiginoso, sem nenhuma relação com a realidade econômica. As ações de empresas ligadas a Internet, valem mais do que as ações da Boing, uma empresa efetivamente produtiva, que gera bens de alta tecnologia e alto valor agregado. Há sinais precursores de um novo crack na bolsa dos EUA. O próprio presidente do Banco Central americano acredita que as ações destas empresas de mentirinha podem despencar de uma hora para outra, o que provocaria a destruição das políticas sociais de todos os países, como uma ogiva nuclear de assombrosa potência. A metáfora é verdadeira, pois no dia seguinte, economias, fortunas, padrões de vida, estariam todos destruídos.
A grande roleta gira sem parar, motivando a todos na busca de uma rentabilidade impossível, inimaginável, só visível dentro de um sistema movido pelo grande espetáculo, onde os atores estão vivendo a fantasia do paraíso capitalista. Os velhinhos americanos, japoneses, europeus, exigem através dos seus fundos de pensão, rentabilidades absurdas de 15% ao ano em economias que crescem 2%. Vive-se o momento, cada dia é dia de ganhar mais e mais. Não há limites para os especuladores.
A concentração de renda é cada vez mais cruel, sempre em benefício dos países do norte. O livre mercado sempre beneficiando os mais fortes. Os grandes blocos se impõem aos blocos mais fracos. Dentro dos blocos, há sempre os mais fortes, que impõem modelos eficientes de exploração. Procura-se plantar a ideologia da integração total, da abertura total, mas por ironia os países dominantes conseguiram seu poderio a custa de um protecionismo histórico.
O capitalismo se impõe em um espetáculo aterrorizante, que o mundo assiste embasbacado, como se nada pudesse detê-lo em sua inexorável marcha rumo à hegemonia total e irrestrita. Talvez fosse preciso que alguém suficientemente ingênuo – talvez uma criança – que apontasse para o palco e gritasse: “O rei está nu” – e o espetáculo ruiria como um castelo de cartas.

GLOBALIZAÇÃO, ORIGENS, DINÂMICA E CRISE

GLOBALIZAÇÃO, ORIGENS, DINÂMICA E CRISE


ORIGENS

Embora os temas da unificação econômica do mundo e da emergência, nos marcos do capitalismo de uma “universal interdependência das nações”, já ocupassem lugar destacado nas reflexões da economia política clássica dos séculos 18 e 19 (De Adam Smith a Karl Marx), a reflexão específica sobre o tema da “globalização” é relativamente recente. Suas origens teóricas mais próximas remetem a desenvolvimentos variados ocorridos no mundo acadêmico anglo-saxão a partir dos anos 60, com destaque para as reflexões pioneiras do teórico da cultura Marshall McLuhan sobre a constituição de uma nova “aldeia global” pelos modernos sistemas de comunicação de massa, e também para as do sociólogo Daniel Bell sobre a convergência das diferentes formações sociais mundiais para uma única “sociedade pós-industrial”, baseada na informação. Em uma versão mais branca, podemos incluir, entre os precursores da reflexão teórica sobre a globalização, os autores da chamada escola inglesa de relações internacionais (Martin Wight e Hedley Bull).

A grande onda de reflexão específica sobre a globalização, no entanto, só ganhou corpo nos 80, a partir de uma farta literatura produzida por quadros da Harvard Business School dos EUA. Entre estes se destacam autores como Michael Porter e Kenich Ohmae. Com a ascensão global do projeto neoliberal ao longo da década e o colapso do campo socialista em 1989-1991, esta “onda” ganhou contornos de um autêntico maremoto. Como foi ocorrer com conceitos que se tornaram modismos intelectuais, isto alimentou o surgimento de inúmeras e variadas interpretações. As linhas mestras do discurso dominante sobre o tema, no entanto, não se afastaram muito dos marcos teóricos formulados originalmente pela literatura especializada na área de administração.

Com relação à origem da chamada globalização econômica, é importante destacar, ao contrário do discurso dominante que a coloca como novidade, é que esse processo acompanha o capitalismo desde o seu desenvolvimento nas formas comerciais, manufatureiras e bancárias nas cidades do norte da Itália no século 15. Foi precisamente a transformação do capital “natural” (imóvel, territorializado) em capital “abstrato” na forma de dinheiro (móvel e sem território específico), que impulsionou a expansão comercial da Europa, resultando nos descobrimentos e no lançamento das bases materiais do mercado mundial. Essa expansão, por sua vez, viabilizou o desenvolvimento e a consolidação do capitalismo europeu, que completou a unificação econômica e política do mundo em torno de si já no século l9.


DINÂMICA DA GLOBALIZAÇÃO


Um dos fatores principais da dinâmica da globalização, é o constante fluxo de capitais entre os países centrais e os países periféricos (economicamente dependentes), com os segundos exportando produtos primários e outros de baixo valor agregado ou complementares e os primeiros exportando produtos de alto valor agregado (produtos de alta tecnologia). Esse fluxo, favorável aos países centrais que controlam os capitais financeiros e detém o monopólio da tecnologia de ponta, mantém uma constante hegemonia (domínio) desses Estados Nacionais sobre os demais. Esse domínio é assegurado pela crescente acumulação de lucro dos países centrais ou a chamada tríade (EUA, Europa e Japão) através do pagamento de royalties, remessa de lucros, importação de componentes das matrizes etc.

Esse processo é mantido através do exercício do monopólio de tecnologia pelos países centrais. Essas tecnologias variam de acordo com o desenvolvimento do sistema produtivo e de novas tecnologias. Um exemplo é a indústria têxtil que até o início do século 20 era controlada por países como a Inglaterra e atualmente é uma indústria considerada de baixo valor agregado.

Wallerstein considera que o sistema global ou sistema mundo está ancorado sob uma hierarquia entre os vários sistemas nacionais, proporcionando um sistema de controle e dominação dos países desenvolvidos sobre os demais (em relativo desenvolvimento e subdesenvolvidos). De acordo com o autor, não existe a possibilidade de um nivelamento do padrão de vida dos países do primeiro mundo com os demais, mesmo considerando o processo de globalização crescente das economias. A necessidade de acumulação constante e crescente do capitalismo inviabiliza qualquer possibilidade de nivelamento, pois essa dinâmica é essencial para a sobrevivência do próprio sistema.

Desde a década de 1990, observou-se um crescente avanço das empresas multinacionais nos países periféricos, estabelecendo-se em vários setores das economias desses países. O crescimento com base em dados de 1999, representou um avanço de 146% das empresas transnacionais nos países mais pobres. O crescimento dessas empresas nos países do chamado terceiro mundo ocorreu, na maioria das vezes, via substituição de empresas nacionais através de aquisições, fusões e joint-ventures. Portanto, foram poucos investimentos diretos (ID) que representariam a colocação de capitais de risco nos países subdesenvolvidos, e o mais grave, é que muitos investidores internacionais utilizam poupança desses países para ampliarem seus investimentos, como é o caso dos financiamentos do BNDES para financiamento de empresas transnacionais no Brasil.

Outro dado importante nesse processo de internacionalização das economias da maioria dos países pobres é que os investimentos anteriormente citados, não geraram o crescimento das exportações, ampliando o nível de dependência econômica em relação às potências capitalistas centrais. Teoricamente, a globalização acena com a possibilidade de crescimento das exportações de produtos de maior valor agregado pelos países mais pobres para fazer frente à crescente demanda por moedas “fortes” como o dólar para pagar seus compromissos internacionais. Também é sabido que os produtos primários vem de forma crescente, perdendo valor no mercado internacional, exigindo em contrapartida, o aumento constante do volume de exportações desses produtos.

Na maioria dos países há um elevado nível de regulamentação com relação a algumas atividades econômicas, dificultando o acesso às empresas transnacionais. Entretanto, há uma forte pressão das potências capitalistas centrais no sentido de demover as fronteiras e regulamentações para facilitar a entrada dessas empresas aos mercados de serviços. O avanço nesse segmento saltou de 9,4% em 91 para 26,1% em 99, indicando uma abertura dos países subdesenvolvidos para o capital internacional. Esse dado não seria tão preocupante se o fluxo de capitais fosse constante e crescente para os países periféricos. Entretanto, ai se coloca uma das grandes fragilidades do sistema, pois a ampliação do controle desse setor por parte do capital internacional cria uma camisa de força gerando a dependência crescente por novos recursos para o pagamento dos lucros e royalties gerados pelos investimentos internacionais.


FATORES DE CRISE


O sistema de acumulação crescente de capital financeiro gera a necessidade de uma rotação constante dos capitais em busca de novas alternativas via custos mais baixos de mão de obra, fontes de matérias-primas baratas e baixo nível de regulamentação das economias e isenção de impostos. Assim, as empresas transnacionais circulam seus capitais por todo o globo em busca de novas vantagens competitivas para enfrentar a concorrência cada vez mais predatória. Sistemas produtivos são deslocados do Brasil para o México, do México para a Tailândia e assim sucessivamente, visando à manutenção dos níveis de crescimento da lucratividade.

Entretanto, esse modelo apresenta sinais de esgotamento, pois o trabalhismo vem também avançando em todo o globo, pois o sistema de comunicação e o relacionamento global dos sindicatos e organizações voltadas para a proteção do trabalho levam reivindicações por melhores salários e condições de trabalho mais adequadas em toda a extensão do globo. Talvez em futuro próximo, países como a China cujo salário médio de acordo com dados do Banco Mundial está em torno de 30 dólares mensais e com um baixíssimo nível de benefícios sociais, os trabalhadores se organizem e compliquem a vida dos investidores, obrigando-os a partir em retirada em busca de novas alternativas.

Além do trabalhismo que pode reduzir vantagens competitivas atuais em muitos países periféricos como China, México e Tailândia, outro problema se avizinha: o esgotamento do êxodo rural como fonte de força de trabalho barata. O século 20 foi palco de um dos maiores movimentos da população do campo para as cidades, invertendo uma distribuição demográfica mantida por décadas. Em meados de 1950 a população brasileira na zona rural representava algo em torno de 70% da população total. Atualmente se observa uma inversão dessa distribuição populacional.

O deslocamento de fábricas para várias partes do globo, as fusões, jointventures e as aquisições internacionais torna necessário também o deslocamento de profissionais especializados e executivos que representam custos significativos num contexto de alta competição.

Além da força de trabalho, o custo dos recursos naturais também se apresenta como uma ameaça em cenários estratégicos, pois vêm sendo ampliadas as pressões de ambientalistas, ONGS e governos para que as empresas internalizem os custos da exaustão dos recursos naturais não renováveis ou renováveis em longo prazo. Além dos recursos, a questão da degradação ambiental se constitui também um sério problema para a competitividade.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

DIVERSIDADE RACIAL NAS ORGANIZAÇÕES: A PERCEPÇÃO DO OUTRO NO PROCESSO SELETIVO

Renato Ladeia Oliveira *

RESUMO
Este artigo pretende contribuir para a discussão da questão racial no Brasil a partir dos processos seletivos para ingresso nas empresas e os mecanismos discriminatórios utilizados. A existência de problemas raciais no Brasil é comprovada através de estudos clássicos, mas não há trabalhos específicos com relação às organizações empresariais. Esse estudo está baseado na história de vida de profissionais de recursos humanos que atuam ou atuaram diretamente nessa atividade. A narrativa desses interlocutores é bastante rica em informações, o que pode indicar caminhos para que as empresas possam coibir essas práticas.

Palavras-chave: gestão de pessoas, ações afirmativas, raça e discriminação.

ABSTRACT
This article intends to contribute for the discussion of the racial subject in Brazil starting from the selective processes for entrance in the companies and the used discriminatory mechanisms. The existence of racial problems in Brazil is proven through classic studies, but there are no specific works regarding the business organizations. That study is based on the history of professional’s of human resources life that they act or they acted directly in that activity. Those speaker’s narrative is quite rich in information, what can indicate ways so that the companies can restraint those practices.

Key words: human resources, affirmative actions, race and discrimination.

* Mestre em Administração de Empresas e doutorando em Ciências Sociais pela PUCSP. É professor do Depto. de Administração da Unifei SBC

Introdução

A temática desse artigo está direcionada para processo seletivo de pessoas nas empresas, atividade inerente ao setor de Recursos Humanos e que trata do recrutamento, triagem e avaliação de candidatos para os seus quadros funcionais. Os profissionais que atuam nesta área têm, a rigor, um poder limitado na aprovação dos candidatos às oportunidades de emprego oferecidas pelas empresas, pois seu papel é limitado na aprovação de candidatos às oportunidades de emprego oferecidas pelas empresas, pois se restringe, em geral, a indicação do melhor ou dos melhores profissionais para o preenchimento das vagas disponíveis. Essa atividade está dividida em duas etapas principais: Recrutamento, como uma série de atividades que trata dos estudos e contatos com o mercado de trabalho, assim como da primeira convocação de candidatos (Toledo, 1992). A seleção propriamente dita, já se refere a um processo, normalmente, mais complexo, onde são envolvidas tecnologias psicológicas como baterias de testes, entrevistas, dinâmicas de grupo, dramatização etc. Toledo (1992:67), explica que “é preciso ter sempre em mente que a boa seleção visa unir um indivíduo a uma função, e que, assim sendo, é preciso conhecer profundamente não só o indivíduo como também a função, sem o que não teremos o verdadeiro ajustamento”. Os testes psicológicos "foram criados, e utilizados para determinar e analisar diferenças individuais com relação a inteligência, aptidões específicas, conhecimentos escolares, adaptabilidade vocacional e dimensões não intelectuais da personalidade" (Formiga & Mello, 2000, p. 13).
Em geral, a decisão final cabe sempre a um gerente ou chefe que receberá o novo funcionário. O selecionador pode, naturalmente, desqualificar uma pessoa negra ou de outra etnia que a seu critério, considera inadequada para o cargo. Caso o requisitante seja preconceituoso com relação à outras etnias, o selecionador tende a assumir o papel de fantoche, descartando os “indesejáveis”, apresentando as desculpas de praxe para não assumir nenhum tipo de responsabilidade, bem como não comprometer os seus pares ou superiores hierárquicos. A expressão “conhecer profundamente a função” envolve, não são somente os aspectos funcionais, técnicos, mas também com quem o funcionário vai trabalhar. Ao unir o indivíduo à uma função, o selecionador deverá ter em mente que está realizando um trabalho eficiente, adequando o indivíduo às característica do chefe e da equipe. Assim, esse profissional é um técno-burocrata, que precisa ser preciso, rápido, discreto e eficiente (Weber, 1974). Portanto, o desafio principal do recrutamento é agregar valor à organização e às pessoas (Chiavenato, 1999). Dessa forma, um funcionário não adequado à empresa (ou ao chefe), não estaria agregando valor. Caso o selecionador seja preconceituoso, ele pode assumir por sua própria conta, a responsabilidade na discriminação de pessoas que considera com “perfil” inadequado, mas sempre utilizando discursos de conteúdo evasivo, como por exemplo: não atende ao perfil solicitado. Essa lógica está implícita no pressuposto de que ele deve agregar valor à organização ao contratar um funcionário. Numa perspectiva de hierarquização das “raças”, é evidente que suas ações serão preventivas, eliminando candidatos que considera inadequados aos objetivos organizacionais, mesmo que os eventuais chefes que estão recrutando os profissionais não discriminem pessoas em função da origem étnica.

Chiavenato, um conhecido e difundido autor de manuais sobre Recursos Humanos e habitualmente adotado em escolas de Administração de Empresas, relata as razões pelas quais algumas pessoas são preteridas ou não para vagas nas empresas:

Acontece que a variabilidade humana é enorme: as diferenças individuais entre as pessoas, tanto no plano físico (como estatura, peso, compleição física, força, acuidade visual e auditiva, resistência à fadiga etc), como no plano psicológico (como temperamento, caráter, inteligência, aptidões, habilidades mentais etc.) levam as pessoas a se comportar diferentemente, a perceber situações de maneira diferente e a se desempenhar diferentemente, com maior ou menor sucesso, nas organizações (1999:107)

As chamadas diferenças individuais mencionadas pelo autor não mencionam a cor, diferentemente do que ocorria até meados dos anos 40 nos anúncios de emprego publicados no país de acordo com Damasceno (2000), quando essa característica fenotípica era explicitada. Entretanto o processo seletivo dispõe de um enorme arsenal de elementos que podem dificultar o acesso de pessoas às organizações sem a necessidade de exposição de comportamentos discriminadores. Num outro momento, o autor afirma que “a seleção passa a ser configurada basicamente como um processo de comparação e de decisão” (Chiavenato, 1999:107). Portanto, a objetividade dos processos seletivos pode ficar na dependência, única e exclusiva, dos profissionais que estão a frente dessas funções nas organizações, pois elas podem dispor de inúmeros mecanismos subjetivos fundado numa ideologia racionalista para formular a recusa de um profissional por preconceitos ou discriminação.

ALGUMAS QUESTÕES TEÓRICAS

A utilização do conceito de raça é relativamente recente na cultura ocidental, pois seu significado original estava mais ligado a um grupo de pessoas interligadas por uma origem comum, conforme afirma Banton (1994:264) e não para se referir a populações com características fenotípicas diferenciadas. De qualquer forma, já é patente no âmbito das ciências sociais, notadamente na antropologia, que biologicamente o conceito de raça não existe no sentido em que é utilizado, sendo o termo irrelevante para a ciência. Admite-se, no entanto, que a expressão tem um interesse maior no campo sociológico do que na biologia ou na antropologia física, sendo por isso considerado como uma construção social, engendrada a partir das relações sociais numa realidade concreta. (Berger e Luckmann, 1983). Neste sentido, raça pode ser também entendida como uma ideologia construída a partir de elementos da realidade, cujo objetivo é mascarar esta mesma realidade em função de interesses sociais, políticos e econômicos.
Para Levi-Strauss (1960), o pecado original da antropologia foi a confusão entre a noção puramente biológica de raça e as produções sociológicas e psicológicas das culturas humanas. Aliás, esta noção, mesmo pretendendo uma objetividade científica, foi amplamente contestada pela genética.
Por sua vez a teoria da evolução de Charles Darwin, através da Origem das Espécies (1996), serviu como fundamento ideológico para a formulação de teorias sobre raças. Não que tenha sido esta a intenção, mas sua obra foi utilizada para dar a base “científica” sobre a hierarquização dos diversos grupos humanos. As leis da seleção natural, da sobrevivência dos mais aptos, foram saudadas pelos europeus como um forte argumento para justificar a exploração dos povos considerados inferiores como os negros africanos e os indígenas. A teoria biológica de Darwin, após um processo de rude simplificação e distorção de acordo com os interesses políticos e econômicos, foi transformada no Darwinismo social.
Para Levi-Strauss (1978), a mente humana apesar das diferenças culturais entre as diversas frações da humanidade, é em toda a parte uma e a mesma coisa, com as mesmas capacidades. O que efetivamente diferencia os homens em suas várias etnias, grupos, tribos é o uso que se faz da mente para atender as suas necessidades cotidianas. Temos assim algumas habilidades desenvolvidas que atendem as demandas da vida moderna numa sociedade industrial e extremamente complexa. Por outro lado, numa sociedade tribal, são desenvolvidas algumas habilidades para as quais nos julgamos totalmente incapazes.
Enfim, a questão da diversidade humana é extremamente complexa, envolvendo aspectos biológicos e, principalmente, sociológicos, antropológicos e psicológicos, tornando-se por isso, impossível o consenso a respeito do tema. A questão relevante, no entanto, é que a dificuldade de aceitar o outro, desemboca fatalmente no ódio, na intolerância e “trata-se, em primeiro lugar, da aparente incapacidade de se constituir como si mesmo, sem excluir o outro; em seguida, da aparente incapacidade de excluir o outro sem desvalorizá-lo, chegando, finalmente, a odiá-lo”. Neste enfoque, o racismo pode ser visto como uma incapacidade humana em aceitar o diferente (Castoriades, 1992:32).

A HISTÓRIA DE VIDA COMO MÉTODO

A definição de história de vida de Dollard, apud Nogueira (1977), é relevante, indicando-a como uma tentativa deliberada para definir o desenvolvimento de uma pessoa num meio cultural e lhe dar um sentido teórico, compreendendo os documentos autobiográficos com os biográficos.
A opção pelo método da história de vida de profissionais que atuam ou atuaram por longo tempo na área de Recursos Humanos, em organizações nacionais e internacionais, tem, evidentemente, razões de natureza antropológica e sociológica, pois se busca não um conjunto de dados quantitativos para serem analisados e comparados, mas a riqueza da informação obtida através dos relatos de vivência de indivíduos, compartilhados ou não, por outros. “Pelo recurso à memória é possível também captar os sentimentos experimentados, pois a lembrança do acontecimento vivido faz com que aflorem o ódio, o amor, a alegria, a tristeza, o conformismo, a revolta” (Bernardo, 1998)
A narrativa parte da experiência concreta, vivida e também daquela contada pelos outros. Essa forma artesanal da comunicação humana não tem a intenção de transmitir um conteúdo puro como a notícia. Pelo contrário, diz Benjamin (1975), “imerge essa substância na vida do narrador para, em seguida, retirá-la dele próprio” A narrativa revelará sempre a marca do narrador, da mesma forma como é revelada a mão do artista na cerâmica.
Durante a vida profissional as pessoas vão acumulando memórias sobre fatos, conflitos, sucessos e fracassos. Essas memórias, de natureza individual ou coletiva preserva vivências pessoais ou aquelas vividas pelo grupo a que a pessoa julga pertencer (Pollack: 1999). Alguns profissionais que atuam e atuaram na área de recursos humanos em algumas empresas paulistas, foram convidados para prestar depoimentos sobre os casos de discriminação racial nas empresas em que trabalharam ou ainda trabalham. A primeira reação manifestada pela maioria deles é que não se lembravam de situações de discriminação racial nas empresas. Entretanto, na medida em que começaram desfiar a teia da memória, foram se recordando de fatos e situações que nunca chamaram à atenção, mas que perceberam, na medida em que foram narrando histórias de vida profissional, que testemunharam casos de discriminação. Os nomes das organizações e das pessoas foram omitidos por solicitação dos depoentes, considerando a delicadeza do tema.
Entre os depoentes, alguns atuaram na área chegando ao topo da hierarquia como Gerentes ou superintendentes. Os demais atuam ou atuaram na coordenação de processos seletivos, recrutando e selecionando candidatos, entrevistando, desenvolvendo dinâmicas de grupo e indicando os mais adequados, de acordo com a percepção de cada um, para as vagas disponíveis nas respectivas organizações.
Dessa forma, a partir da história de vida desses profissionais foi possível identificar situações de discriminação racial nas organizações em que desenvolveram suas atividades profissionais. As lembranças, às vezes, são vagas, mas sempre há um caso para ser resgatado, no fundo do baú da memória humana. Há casos em que nunca foram pensados como tal, mas vieram à tona no momento em que fizeram os depoimentos. Todos eles, de uma forma mais explícita ou apenas por suposição, se lembraram de situações que evidenciam situações de discriminação em relação ao negro ou a outras etnias.
Para Halbwachs (1968), a experiência para ser real precisa ser vivida, construída na memória do indivíduo e quando essas lembranças são confrontadas por outros, aumenta a crença de que se está reconstruindo a própria experiência. Assim, a memória precisa ser colocada em um contexto grupal, do qual o indivíduo faz parte, supondo acontecimentos comuns, reais, vividos em comum. Daí a validade dessa experiência, pois ela foi compartilhada por outros e de certa forma também vivida pelo narrador ao sentir na pele aquilo que somente é contado por aqueles que foram vítimas.
Há uma enorme fronteira entre o dizível e o indizível, o confessável e o inconfessável, que separa uma memória coletiva subterrânea da sociedade civil dominada ou de grupos específicos, de uma memória organizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado que as representam desejam passar e impor. A história oral, tem aí um papel relevante no resgate dos que vivem a margem da história oficial.

Discriminação racial nos processos seletivos

O processo de seleção dos empregados para as organizações tem uma importância primordial na investigação do racismo nas organizações, pois é o primeiro contato com a empresa, podendo resultar numa experiência positiva ou negativa, na contratação ou não. Mesmo as empresas mais abertas à diversidade, podem ter em seus quadros funcionários que agem de forma preconceituosa com relação ao outro, pois eles quase nunca se revelam ou assumem suas posições com relação ao diferente. Como já foi dito, os critérios de racionalidade administrativa não são tão abrangentes que possam inibir elementos de subjetividade no momento de avaliar um candidato. Se o selecionador já conhece o estilo do gerente para o qual será encaminhado o candidato, provavelmente ele deverá barrar aquele que não esteja ajustado ao perfil solicitado, mesmo que tenha competências relevantes.

Os depoimentos seguintes mostram o nível de subjetividade que permeia todo o processo em que as pessoas são selecionadas para serem contratadas pelas organizações privadas. Éno caso das organizações públicas os critérios de impessoalidade são muito mais efetivos, pois depende do desempenho dos candidatos nas provas escritas, e essas garantem para aqueles que obtiveram as melhores notas, o direito assegurado pela constituição de ingressar no serviço público ou numa empresa pública.

L.H.L., 39 anos, branca, psicóloga e Consultora de Recursos Humanos admite a existência de subjetividade ao afirmar que o preconceito depende das pessoas que estão entrevistando os candidatos e não da empresa em si, conforme relata:

Acho que depende muito de quem entrevista, de quem recebe as pessoas. Se a pessoa é preconceituosa, ela vai agir ali e nunca ninguém vai ficar sabendo. Eu acho muito difícil ocorrer, primeiro porque nenhuma organização vai ter essa política de não contratação de negros ou outras raças. Eu nunca vi isso dos requisitantes.

No início do seu depoimento L.H.L.. deixou bem claro que não percebeu, em nenhuma situação de sua vida profissional, um só caso de preconceito ou discriminação contra pessoas negras desde 1985, quando começou a trabalhar como Psicóloga em seleção de pessoal. Seu discurso procura passar uma racionalidade profissional, onde os melhores, os mais aptos eram aprovados com base nos perfis estabelecidos pelas organizações (Weber: 1974). Para ela, apenas um fato se tornou marcante em sua trajetória: quando foi acusada de racismo por uma candidata que se sentiu discriminada por ser negra. Luzia conseguiu provar que agiu profissionalmente, mas afirma que ficou com dúvida se a moça agiu por má-fé ou por se sentir mesmo discriminada.
“Ela não havia sido reprovada pela cor, mas por não ter as características da requisição, por exemplo: tom de voz, comunicação verbal que eram coisas importantes no atendimento ao público. O banco usou isso como justificativa. Eu não sei se ela entrou com isso maldosamente ou se ela mesma achava... Quer dizer: o racismo começa também com os negros. Tem esse lado também. Tanto é que lá no banco tem vários negros”. (L.H.L.)

Esta construção indica uma inversão de papéis, em que o negro teria um sentimento de superioridade em relação aos demais. Essa idéia tem o sentido absurdo de que oprimido é superior ao opressor. A construção do racismo está fundamentada na percepção de que uma população humana é superior às demais. Portanto, não faz sentido aquele que é percebido como inferior ter atitudes racistas. O sentimento de revolta contra a exclusão pode estar sendo usado como justificativa para os mecanismos de discriminação do outro.

Na fala seguinte L.H.L. relativiza a questão com base na sua experiência, defendendo que algumas empresas nacionais praticam mais discriminação, citando o banco em que trabalha.

“As multinacionais não são tão preconceituosas assim, dependendo do país onde elas se entram. Mas algumas empresas nacionais acabam tendo maior discriminação. Por exemplo, o banco em que trabalho. Um banco extremamente formal, que discrimina a idade, a aparência, mas nunca problemas de cor. Nunca um requisitante falou, assim, abertamente: não quero negro, não quero japonês, nunca aconteceu isso”. (L.H.L.)

O exemplo do banco, que adota políticas discriminatórias em relação à idade e a aparência, pode ser um caso de camuflagem do preconceito. Não é difícil entender o significado de boa aparência, quando não são vistos gerentes ou atendentes negros. A boa aparência pode ser uma senha para o preconceito numa sociedade que há séculos pratica a discriminação. A metáfora da boa aparência, historicamente, passou a ser utilizada no final dos anos 40 (Damasceno, 2000), pois até então os anúncios de jornais destacavam a cor desejada nas contratações. Para as funções que havia invisibilidade a cor não era mencionada ou chega-se até a destacar a preferência por negros ou pardos. Entretanto, quando o empregado tinha uma função visível ou relacionamento direto com os superiores ou a família do contratante, a cor branca era preferida. A exigência da fotografia é outra forma, até hoje ainda utilizada por alguns anunciantes, pois evita o contato com candidatos considerados “diferentes” para as vagas. Assim, a combinação “da cor com a boa aparência vai aos poucos sendo substituída pela segunda não teriam vez, pois na visão racializada, as pessoas que mantêm contato direto com o público precisam ser claras e bonitas.

L.H.L. narra que a questão é mais complexa e está ligada a questão social no negro no Brasil. Ela entende que o problema se vincula à desigualdade de oportunidades e enfatiza ainda, que não é apenas a formação escolar, é a formação familiar, é o conhecimento geral.

Em seguida, transfere a culpa da desigualdade e do sentimento de inferioridade dos negros. Esse sentimento é patente, mas ela não percebe que está relacionado ao racismo, que leva os negros brasileiros a terem baixa auto-estima, colocando-os numa situação de inferioridade nas dinâmicas de grupo dos processos seletivos, em que se confrontam com brancos, quando necessitam se posicionar, discutir e questionar. Essa questão é discutida por Hasenbalg (1979) que, ao contrário de outros estudos, questiona se de fato o tempo relativamente recente do fim do regime escravo seja um fator determinante na desigualdade atual. Ele tem razões para afirmar que não, pois a desigualdade é fruto da discriminação, não somente após a abolição, mas também anteriormente a ela, pois havia cerca de 74% dos não-brancos no Brasil em liberdade e apenas 10% da população negra estava ainda em regime escravo na assinatura da lei Áurea em 1988.

Como já foi mencionado, as organizações, através dos seus dirigentes, jamais assumiriam uma política de discriminação, mas as pessoas que estão dentro delas, podem agir de forma a discriminar pessoas por etnia, sexo, religião, cultura etc. Como os critérios de avaliação contém uma dose significativa de subjetividade, é impossível ter um controle efetivo sobre a prática. A boa apresentação a depoente afirma “nunca foi muito explícita” e talvez por isso ela perceba poucos negros trabalhando nas empresas, principalmente em cargos administrativos e de nível mais alto.

L.H.L. acredita que a legislação mais severa contra o racismo faz com que as pessoas sejam mais sutis, pois ninguém assume o seu racismo de forma explícita. Ela sugere que deve ter acontecido alguma vez de ter encaminhado vários candidatos e não serem aprovados por serem negros; mas realmente nunca sentiu que foi por causa da cor.

A coisa é meio implícita, como uma boa apresentação, nunca foi muito clara. O que eu percebo, é que existem realmente poucos negros trabalhando nas empresas. E depende também da área. Se é numa indústria nota-se bastante negros, mas na fábrica.. Para cargos de assistentes também existem alguns negros, mas quando vai subindo o nível já vai diminuindo a contratação de negros. (L.H.L.)

Ela também relatou que recentemente contratou um gerente negro indicado por um diretor. Como o diretor já havia trabalhado com o profissional negro, ele fez questão de contrata-lo. Havia outro candidato em iguais condições que também foi encaminhado, mas não foi aprovado. A questão que se coloca é que se ela teria efetivamente encaminhado o candidato para entrevista se não houvesse a indicação do diretor? A resposta é, possivelmente não, pois a prática é encaminhar o candidato com o perfil mais adequado à organização e um negro, na visão da depoente, poderia não ter essa condição, pois é um diferente, destoante do padrão socialmente construído de um executivo de um grande banco. Percebe-se isso quando ela afirma: “Entrevistei um candidato branco que tinha uma formação melhor do que o negro e com experiência que vinha ao encontro das necessidades da área”.

M.I.G. 40 anos, economista e gerente de recursos humanos em um banco multinacional iniciou seu depoimento sendo taxativa quanto ao fato de nunca ter presenciado um caso discriminação nas empresas nas quais trabalhou. Mas acabou lembrando de uma história em que o próprio candidato cobrou uma definição da empresa quanto a sua posição frente à diversidade racial. Ele colocou a seguinte questão: “O banco é racista? Se for nem darei continuidade ao processo”. Essa situação colocou em cheque os valores da profissional levando-a a questionar a si mesma, outras pessoas da empresa e mesmo a própria organização, pois não se sentia em condições de continuar o processo de seleção sem uma definição sobre como o candidato negro seria considerado, mesmo tendo um excelente currículo.

Esse caso também reflete a ausência evidente de políticas afirmativas dentro da organização com relação à discriminação. Ao desconhecer as políticas do Banco com relação ao tema, a depoente expôs as contradições existentes nas organizações ao lidarem com profissionais conscientes de sua condição e da existência de discriminação. Ao questioná-la, o candidato quis saber se valeria a pena concorrer numa situação em que as cartas estariam previamente definidas. Provavelmente, sua experiência de vida competindo com brancos num mercado bastante restrito, já lhe havia proporcionado uma visão de sua situação. A resposta da bancária foi, obviamente, que não havia este tipo de problema no Banco para evitar maiores complicações, mas intimamente tinha dúvidas, o que a levou a questionar a empresa e outros colegas de trabalho. O espírito de corpo, conforme afirma Merton (1999), que está presente no comportamento burocrático levou a profissional a preservar seus superiores, pares, enfim a organização. A presença de negros em condições de concorrer a posições de nível mais alto dentro das hierarquias das empresas é tão incomum no Brasil, que pode gerar situações surpreendentes como a descrita.

E.J.S, 50 anos, branco, Bacharel em Ciências Sociais, trabalhou toda sua vida numa empresa alemã, atuando como Supervisor do Departamento de Seleção e Treinamento. Ele relata várias situações vividas na empresa sobre as relações raciais. No seu caso, também, não aparecia de forma explícita a existência de racismo por parte da direção da empresa, constituída, em sua maioria, por alemães. Ele lembra que nos anos 70 um gerente recusava com freqüência a maioria dos candidatos encaminhados. Questionado ele respondeu: “Se o sujeito nasceu do Rio de Janeiro para cima, não manda o candidato para mim”. Segundo o depoente, esse gerente tinha um imenso preconceito contra a mistura de raças, recusando além de candidatos negros, também os mestiços.
A história do depoente comprova que a decisão pelas contratações não era dele e de nada resolveria ignorar o gerente e continuar enviando candidatos negros, mestiços ou mesmo nordestinos que todos seriam reprovados. Ao cobrar uma definição do gerente, este assumiu o racismo de forma explícita. Como ele comandava uma área de grande importância para a empresa e gozava de muito prestígio e poder, a solução foi atendê-lo para evitar maiores problemas. A posição do narrador, evidentemente, foi tentar ser neutro, evitando dificuldades que pudessem ameaçar o seu emprego ou mesmo o bom desempenho de seu setor. Isso evidencia que “Ao longo da história, as organizações têm sido associadas a processos de dominação social nos quais os indivíduos ou grupos encontram formas de impor a respectiva vontade sobre os outros” (Morgan, 1996:281). Na época do relato (anos 70), o país estava atravessando um significativo crescimento econômico e como o departamento desse gerente era estratégico para a organização, não podia faltar mão-de-obra de acordo com o perfil solicitado. O contrário implicaria em transferir para a área de Recursos Humanos, a responsabilidade pelo não cumprimento das metas do departamento e por conseqüência da empresa.
Outro aspecto interessante do depoimento de E.J.S. está relacionado também ao preconceito em relação aos nordestinos, quando ele diz: “Do Rio de Janeiro para cima não enviar candidato”, “a discriminação em relação aos nordestinos, verificada em São Paulo, manifesta-se através de vários meios, contudo, o que mais sobressai é a linguagem” (Estrela, 2003: 180). Na realidade ocorre um processo de racialização das relações, pois nem todos os nordestinos são negros ou mulatos. Nesse processo, converte-se o sentimento de racismo para outros grupos ou etnias, independentemente se são brancos ou não. Estrela (2003:81), afirma que a identidade social é um produto das representações, mantendo um estreito vínculo entre, por um lado, as condições para a construção das identidades e os elementos articulados nestas representações e, por outro lado, as condições de existência, a cultura e as relações sociais. Dessa forma, são atribuídas características estereotipadas para todos os nordestinos, criando-se para eles um tipo de identidade associada à pobreza, a ignorância, ao machismo, a violência etc. (Estrela, 2003).
Num outro momento E.J.S. narra a história de uma nutricionista negra, com um excelente currículo que ele enviou para entrevista com o Diretor de Recursos Humanos, cuja origem era japonesa. Ele afirma que o Diretor não quis contratar a moça por ser negra e chegou a fazer o seguinte comentário: “Essa moça é muito boa, mas se aparecer um fio de cabelo na comida, eu vou ser alvo de críticas”.
Ele partia do pressuposto de que os negros não são limpos, mas ele não assume explicitamente a posição. O preconceito seria do diretor ou dos alemães? Ele se justificava através do medo de ser responsabilizado por um possível acidente na cozinha: como deixar um fio de cabelo na comida. E se o cabelo fosse loiro, não haveria problema? A explicação possível é que os executivos brasileiros em posição subalterna nas multinacionais assumem a expectativa de que os estrangeiros (europeus e norte-americanos) possam ser, necessariamente preconceituosos e os protegem contra aqueles que Chomski denomina de ”raças perigosas” (1996). Na realidade o que sugere nos contatos mantidos com várias organizações pelo autor, o estrangeiro tem uma percepção mais racionalista das relações do trabalho e se coloca de forma mais impessoal. Para ele o que importa é a produtividade, resultados e eficiência. O “colonizado” tem pouca importância para as suas relações pessoais fora das organizações, pois eles se isolam dentro da suas comunidades, com escolas e clubes segregados da comunidade brasileira.

Num outro momento E.J.S. cita um advogado negro, cujo currículo foi muito apreciado pelo mesmo diretor, pelo menos até o momento da entrevista. Como o candidato preenchia todos os requisitos da vaga, o diretor foi explícito e confessou que não ficaria bem um negro nesta posição. Ao exercer funções mais sofisticadas do que um simples serviçal, o negro nega em seu comportamento as representações que dele são feitas (Cardoso: 2003), mas assumir uma posição em que seria não somente um igual, mas estaria entre aqueles mais iguais do que até outros (brancos), seria um acinte.
Para o narrador o diretor brasileiro de origem japonesa representava o papel que ele acreditava que os alemães queriam que o fizesse ou ele mesmo assumia, por sua conta, o possível racismo dos alemães no Brasil. Esse comportamento pode parecer estranho, pois os descendentes de japoneses também sofrem discriminação no país, mesmo sendo mais sutil. É provável que o discriminado busque na discriminação do outro, a aceitação de si mesmo pelo grupo hegemônico. Esse fenômeno ocorre também com negros, que para serem aceitos pelos brancos, criticam o comportamento dos demais negros como se não fosse um deles. Os nipobrasileiros, na realidade, apesar de serem chamados de japoneses, mesmo os de terceira e quarta geração, foram assimilados do lado branco da bipolaridade de status “branco/negro”, herdada da escravidão (Guimarães, 1999:54 e 55).descendentes de japoneses e, sendo eles também discriminados, cultuem o preconceito contra os brasileiros

A discussão com relação ao preconceito dos estrangeiros é bastante fecunda. Bastide e Fernandes (1971) em pesquisa realizada em São Paulo em 1958 identificaram que os negros acreditavam que os estrangeiros aprenderam o racismo aqui, através das antigas famílias. Ter preconceito era uma forma de se elevar socialmente. Outros defendiam a posição de que os estrangeiros, principalmente os italianos, foram os responsáveis pela exasperação das idéias racistas. Como foi mencionado, o diretor era de origem japonesa, uma etnia que também chega a ser discriminada em certos setores de nossa sociedade, apesar de bastante valorizada pela sua capacidade de trabalho. Ao assumir a posição do estrangeiro em posição de comando nas organizações, pode-se comparar como o esmagamento do colonizado, quando este inclui os valores dos colonizadores, adotando a sua própria condenação. Esse fenômeno é semelhante a negrofobia do negro ou o anti-semitismo do judeu (Memmi, 1989).
J.A.V., 52 anos, economista e consultor de Recursos Humanos, lembrou-se de uma história que nunca chegou a pensar que pudesse ser um exemplo de racismo ou discriminação. Ele trabalhava em uma empresa italiana e estava contratando um gerente para uma área de produção. Como na época havia uma grande demanda por profissionais especializados, havia poucas opções de candidatos e o melhor era um negro. Ele comentou que foi difícil convencer a diretoria a contratá-lo, mas acabou prevalecendo a sua opinião. Segundo ele, essa foi uma excelente contratação, foi um dos melhores quadros da empresa. Entretanto ele lembrou que foi visitar o candidato em casa, conhecer sua família, onde e como morava, além de uma profunda investigação sobre a vida passada do mesmo. Essa prática não era aplicada para executivos brancos e aí ficou evidenciado o tratamento diferenciado. Pressupõe-se que um profissional nesse nível que seja branco tem uma credibilidade maior, dispensando qualquer tipo de investigação.

Em outro momento ele explicita suas posições com relação as possibilidades de mobilidade social dos negros

“As pessoas que estudam, se preparam, ocupam um espaço. À medida que as pessoas se propõem a vencer, elas vencem. À medida que os negros se propõem a vencer e vêem isso como um desafio, eles vencem. (...) Então o problema é o indivíduo se posicionar, acreditar que ele pode, então ele vai vencer. Ele precisa provar que é capaz para poder vencer. Se for mulher e negra então, é bem mais difícil para vencer o preconceito” (J.A V.)

Ele finaliza de forma contraditória ao afirmar que o negro precisa provar que é capaz para vencer. O branco não precisa disso, mas o negro precisa provar que é mais capaz. Ao afirmar que se a profissional for mulher e negra, é mais difícil, reafirma a existência do preconceito racial e de gênero. Assim, historicamente “parece provável que os esforços feitos por pessoas não-brancas para cobrirem uma certa distancia social fossem maiores do que os exigidos por pessoas brancas” (Hasenbalg, 1979).
Na mesma linha de raciocínio, J.A.V. continua enfatizando a idéia de que o sucesso profissional depende, fundamentalmente, do indivíduo, como se houvesse espaço para todos, inclusive para os brancos bem educados. Essa percepção faz parte do modelo ideológico disseminado pelo neoliberalismo, em que basta ter força de vontade e competência para vencer na selva competitiva do capitalismo moderno. Os estudos de Pagè e seus colaboradores (Motta, 1992) sobre a mobilidade em grandes empresas francesas identificam que os cargos no topo da pirâmide das organizações são sempre ocupados por descendentes de famílias aristocráticas ou muito influentes. Apesar das diferenças de mobilidade dentro das organizações brasileiras em relação às francesas, o discurso do depoente indica contaminação pela ideologia dominante.
As contratações de profissionais nem sempre obedecem a critérios seletivos em função do nível funcional, mas ocorrem também em atividades de “chão de fábrica” como relata o depoente R.F.O 49 anos, branco, administrador de empresas e consultor de RH. Ele relata que numa empresa americana, bastante tradicional, um supervisor de um setor em que trabalhavam muitas moças como auxiliares de produção, ele era taxativo: “Escurinhas, nem adianta mandar para entrevista”. Nas épocas em que o volume de produção demandava um número maior de empregadas ele era obrigado a aceitá-las, mas quando a demanda se estabilizava, eram as primeiras a serem demitidas. Esse fato indica que realmente o padrão de discriminação está associado, também, aos interesses do capital, que são mais relevantes quando afeta os níveis de acumulação. (Ianni, 1972)
Não seria correto afirmar que as organizações são racistas ou discriminadoras, mas sim os indivíduos que as constroem e aqueles que propagam e conservam a cultura organizacional. Portanto, as organizações fazem parte da realidade social construída pelo homem e como tal, representam a ideologia hegemônica presente na sociedade mais ampla (Berger e Luckman, 1973). O racionalismo burocrático numa perspectiva weberiana, busca a impessoalidade dos profissionais como um fator de eficiência organizacional. A atribuição de funções é feita pela qualificação técnica, determinada por procedimentos formais e impessoais. O princípio fundamental da burocracia é a divisão do trabalho, baseada na especialização de tarefas, conhecimento fragmentado das responsabilidades etc. que garante a manutenção de padrões e evita que haja intromissão indevida de um profissional nas atribuições de outro. (Merton, 1979).

O R.F.O., observa que não havia negros nos escritórios dessa empresa e admite que havia uma orientação geral neste sentido. Essas orientações não são públicas e se questionadas, os representantes das empresas jamais admitirão publicamente uma postura de discriminação ou de racismo. Para Damasceno (2000) e Hasenbalg (1979) o negro precisa ficar invisível nas empresas, pois nos escritórios eles teriam visibilidade, prejudicando o relacionamento com clientes e consumidores. Neste sentido haveria a discriminação de negros e mulatos não somente pela qualificação, mas também por não serem esteticamente adequados. “Nos escritórios não havia negros, mas não havia nada explícito contra, ou melhor, havia sim. O gerente geral pedia que se evitasse, pois o diretor achava que poderia dar algum problema. (caso de uma multinacional americana)” (R.F.O.).

Em outra parte do depoimento ele lembra um caso em que por falta de opção, o gerente geral, um brasileiro, aceitou contratar um candidato negro, mas com algumas ressalvas. Ele precisa provar que não representaria nenhum risco para a organização. Os antecedentes familiares, ao contrário dos brancos, torna-se muito relevante na contratação de um profissional negro. Otavio Ianni, em seu estudo sobre preconceito racial em Curitiba, concluiu que numa situação de forte demanda por empregados o preconceito em relação aos negros diminui, pois a racionalidade do capital supera o racismo. O mesmo ocorreria numa situação de excesso de mão-de-obra no mercado. Neste caso haveria um acirramento do racismo, excluindo os negros do mercado de trabalho (Ianni, 1972).

H.L. outro depoente, 48 anos, branco, Administrador e Gerente de Recursos Humanos se contradiz ao lembrar de uma empresa cujos proprietários eram franceses.

“Lá não tinha muita discriminação, mas como os proprietários eram franceses (e a gente conhece mais ou menos como é a cultura francesa...). Não era uma coisa explícita, mas procurava-se evitar contratações que não fossem dentro dos padrões que os donos estabeleciam. Não havia uma orientação explícita, mas quando se apresentavam candidatos com este tipo de perfil (negros), eles eram preteridos”.

Inicialmente ele declara que não havia muita discriminação, mas depois assume que sim e coloca a culpa nos franceses. A frase sobre a cultura francesa pode revelar o preconceito que os brasileiros acreditam que os estrangeiros têm em relação aos diferentes (negros). É possível que os franceses dessa empresa nunca tenham se manifestado a este respeito, mas os brasileiros podem ter assumido o preconceito em nome deles. Os brasileiros se envergonham dos seus compatriotas negros e mestiços, procurando escondê-los sob o tapete da invisibilidade. Como o preconceito permeia a nossa sociedade, os executivos brasileiros procuram proteger os seus patrões estrangeiros daqueles que eles consideram “perigosos ou feios”, pois apesar de se sentirem “europeus” e ao mesmo tempo brasileiros, incorporam o mesmo estigma do colonizado, mas transferindo para os outros (os negros e mestiços) a inferioridade. Como “colonizado, não procura apenas enriquecer-se com as virtudes do colonizador em nome daquilo que deseja vir a ser, empenha-se em empobrecer-se, em arrancar-se de si mesmo” (Memmi, 1989:107).

H.L. afirma que não haveria possibilidade de discriminar pela cor, desde que o candidato estivesse numa condição favorável em termos de competência, experiência e formação escolar, mas admite que nas mesmas condições em relação a um branco ele estaria em desvantagem, conforme relata: Acredito que para os negros que estão numa condição melhor, não haveria justificativa para reprovar diretamente. Eu nunca vivenciei esse tipo de coisa. Mas nas mesmas condições sim. (grifo do autor).

Isso significa que mesmo tendo acesso a melhores níveis educacionais, dificilmente teríamos condições de igualdade nos processos seletivos, pois como afirmou o depoente, nas mesmas condições de um branco não haveria chance de romper a barreira. Seria preciso apresentar habilidades e competências substancialmente superiores para superar o preconceito m relação ao outro “diferente”. Talvez o setor público apresente as melhores condições para superação das desigualdades, pois como foi mencionado, o processo seletivo está baseado em provas objetivas e os resultados são incontestáveis. Resta saber se haveria possibilidade de mobilidade funcional posteriormente. Bem, aí já é uma outra história.

M.S., psicóloga, negra, Consultora de Recursos Humanos, sentiu na pele a discriminação, mesmo gozando de algum poder dentro das organizações em que trabalhou. Ela narrou que numa empresa estatal, quando trabalha como selecionadora de pessoal, um supervisor pediu que ela não enviasse negros para entrevista. “Eu disse para ele: o senhor sabe qual é a minha cor?”. Num outro momento de sua narrativa ela conta que ao discutir uma questão profissional com uma gerente do mesmo nível, esta lhe respondeu: “Coloque no seu lugar negrinha!”. Qual é o lugar dos negros? Na senzala? A cultura brasileira ainda é permeada de componentes da velha aristocracia rural que parece não ter ainda assimilado, mesmo depois de mais de cem anos, o fim do trabalho escravo.

Os recortes dos depoimentos inseridos no artigo representam apenas parte dos casos de discriminação narrados pelos profissionais entrevistados e ficaram restritos aos aspectos relacionados aos processos de ingressos de profissionais nas organizações. Outras formas de discriminação estão ligadas a mobilidade profissional nas empresas que devem ser tratados de forma específica. Os dados relatados são contundentes e revelam as sutilezas de um sistema social que segrega “amigavelmente” o diferente, evitando a exposição dos algozes aos ditames da lei.

Considerações finais

Mesmo considerando as limitações implícitas neste trabalho cuja natureza é ainda exploratória, há fortes indícios da existência de práticas discriminatórias com relação ao outro, o diferente. As práticas não são deliberadas e não partem de políticas ou filosofias empresariais, mas está presente na herança cultural de toda uma sociedade, em todos os níveis e classes sociais. As organizações empresariais em seus estatutos ou políticas formalmente escritas não explicitam tais atitudes, mas as pessoas que as dirigem ou mesmo aqueles “pequenos” burocratas que detém algum poder respaldado pelas próprias normas organizacionais, cuja interpretação lhes asseguram algum nível decisório, podem em algum momento, utilizar critérios pessoais que resultam em discriminação.

Os depoimentos ilustram claramente o que foi afirmado. As empresas nas quais os depoentes trabalharam ou trabalham, nunca deixaram claro que esperavam deles esta ou aquela atitude. Talvez por omissão, talvez por serem consideradas desnecessárias. As práticas relatadas explicitam de modo inequívoco a presença na sociedade de uma herança cultural repleta de preconceitos, percepções equivocadas e petrificadas sobre a existência de uma hierarquia entre os grupos humanos. Outro dado que merece destaque é a percepção de que o estrangeiro compactua com este estado de coisas, quando pode ser apenas um preconceito transferido para o outro, ou a idéia de proteger o outro contra aqueles que são considerados indesejáveis. Um dos depoentes afirmou: “Você sabe como são os franceses...”, em relação a idéia de que os franceses são etnocêntricos e que não gostavam de pessoas negras. Outro se preocupava com a possibilidade dos diretores alemães não aceitarem a possibilidade de uma cozinheira negra cuidando da sua comida. Esses preconceitos, estariam na mente dos próprios brasileiros, contaminados por séculos de discriminação do outro, decorrência de um passado escravista. Evidentemente não se tem a pretensão de excluir os estrangeiros de qualquer possibilidade de práticas racistas, mas considerando a lógica empresarial e os pressupostos da racionalidade administrativa, parece possível que essas questões seriam pouco relevantes para os resultados organizacionais em um outro país.

Em princípio, pode-se descartar a relação entre práticas discriminatórias e a origem da empresa, mesmo que isso possa ocorrer de forma isolada. Alguns depoentes consideram que algumas empresas multinacionais têm apenas um discurso de ação afirmativa, mas na prática pouco fazem para a concretização dessa política. Outro entende que as empresas brasileiras são mais abertas do que as multinacionais, não criando obstáculos à contratação de afro-descendentes em seus quadros, mas admite em outro momento do depoimento que em alguns setores mais tradicionais da economia, isso não se concretiza.

Outra questão relevante que foi discutida é a “boa aparência”, uma metáfora que pode estar ocultando um profundo preconceito com relação ao outro. Seria ilusório pensar que o selecionador de pessoal ao receber uma solicitação de funcionário que mencione “boa aparência” consideraria a possibilidade de contratar o diferente, o “outro”. Os meios de comunicação impõem um padrão estético à sociedade, que mesmo sendo multi-étnica, acaba incorporando esses valores.

Entretanto, é preciso ressalvar, que muitas organizações vêm adotando ações afirmativas, principalmente as grandes corporações multinacionais, que por estarem instaladas em várias partes do globo e frente a frente com a diversidade cultural e étnica, consideram essas ações como necessidade estratégica para sobrevivência num mercado globalizado.

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